Teses e Dissertações
CONHECIMENTO SOBRE O GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA EM PROFISSIONAIS DE SAÚDE ATUANTES NA ATENÇÃO PRIMÁRIA DE LONDRINA – PARANÁ
RENATA LIZANDRA BUENO NASCIMENTO, Mathias Roberto Loch
Data da defesa: 13/02/2026
A promoção da alimentação adequada e saudável constitui uma estratégia essencial para a promoção da saúde e a melhoria da qualidade de vida da população. Nesse contexto, o Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB) se destaca como um instrumento fundamental de orientação e promoção de práticas alimentares saudáveis. A Atenção Primária à Saúde (APS), por sua vez, exerce um papel estratégico na implementação dessas diretrizes. O objetivo deste estudo foi verificar o conhecimento dos profissionais de saúde da APS sobre o GAPB. Foi realizado um estudo transversal, de amostragem por conglomerados com 373 profissionais de saúde atuantes na APS do município de Londrina - PR. Foi aplicado um questionário sociodemográfico, perguntas relacionadas ao trabalho e a escala GAB1 que possui 16 perguntas (de 0 a 16 pontos) com objetivo de investigar o conhecimento sobre o conteúdo do GAPB. Para a análise descritiva, usou-se a distribuição de frequências absoluta e relativa. Utilizou-se o teste de Shapiro Wilk para testar a normalidade das variáveis e na comparação de medianas, foi realizado teste de Mann Whitney para dois grupos e Kruskall Wallis para as variáveis com mais de dois grupos. Para analisar o nível de acertos das questões sobre o GAPB de acordo com a categoria profissional utilizou-se o teste Qui-Quadrado. A média e mediana de conhecimento dos profissionais de saúde atuantes na APS de Londrina - PR foi de 11 e 12, respectivamente. O conhecimento associou-se positivamente com ser Nutricionista - maior conhecimento em nove das 16 questões do instrumento e com profissionais com menos de 10 anos de atuação na APS. A média aumentou conforme o maior nível de escolaridade e maior frequência de uso das práticas de cuidado da APS (p valor <0,05). Ao comparar o nível de conhecimento sobre o GAPB por profissão, as maiores medianas foram do grupo de Nutricionistas (14), Profissionais de Educação Física (14) e Médicos(as) (13). Houve diferença significativa apenas no grupo de Nutricionistas e Médicos(as), quando comparada às médias dos ACS, Auxiliar/Técnico em Enfermagem e Auxiliar/Técnico em Saúde Bucal. Os profissionais da APS de Londrina apresentaram níveis de conhecimento sobre o GAPB semelhantes aos achados nacionais, porém com lacunas que limitam sua incorporação às práticas cotidianas. Nutricionistas obtiveram melhor desempenho, evidenciando desigualdades formativas e fragilidades interprofissionais, enquanto maior escolaridade e tempo de atuação associaram-se a melhores resultados. Os achados reforçam a necessidade de integrar os conteúdos do GAPB aos processos formativos e às ações de educação permanente em saúde, com enfoque interprofissional e matriciamento nutricional, contribuindo para o fortalecimento da APS, do cuidado integral e da efetivação do direito humano à alimentação adequada no contexto da Sindemia Global.
HIV/AIDS EM ANGOLA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA (2015-2024)
BENVINDO PAULO FILO NIENGUE, Mathias Roberto Loch, Paulo Henrique de Araujo Guerra
Data da defesa: 24/02/2026
O HIV continua sendo um grande problema de saúde pública global, especialmente no continente africano. Em Angola apresenta a prevalência entre adultos é de cerca de 1,6%, o que corresponde a cerca de 370 mil pessoas vivendo com HIV. Em 2024, ocorreram aproximadamente 21 mil novas infecções e 13 mil mortes relacionadas à aids. Neste contexto, a necessidade de sistematizar o conhecimento produzido sobre HIV/Aids em Angola torna-se evidente. A produção científica nacional ainda é escassa, fragmentada e, muitas vezes, pouco acessível, o que dificulta a identificação de tendências epidemiológicas, a avaliação da efetividade das intervenções e a formulação de políticas públicas baseadas em evidências. O objetivo deste estudo foi sintetizar o conhecimento relacionado ao HIV/Aids em Angola no período de 2015 a 2024. Foi realizado um estudo do tipo revisão integrativa da literatura. A revisão foi conduzida em etapas sequenciais: (1) identificação do tema e seleção da hipótese ou questão de pesquisa para a elaboração da revisão integrativa; (2) estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão de estudos/ amostragem ou busca na literatura; (3) definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados/ categorização dos estudo; (4) avaliação dos estudos incluídos na revisão integrativa; (5) interpretação dos resultados; e (6) apresentação da revisão/síntese do conhecimento. A construção da questão de pesquisa baseou-se na estratégia PCC (População, Conceito e Contexto), sendo que a pergunta formulada foi: Quais são os principais achados publicados entre 2015 e 2024 sobre HIV/aids em Angola? Assim, foram incluídos artigos originais completos, publicados em um período de dez anos (2015 - 2024) que abordassem sobre HIV/Aids no contexto de angolano. O levantamento bibliográfico foi realizado em maio de 2025, pelo acesso virtual as bases de dados CINAHL, Scopus, Embase, Medline, PubMed e LILACS. Utilizou-se a seguinte combinação de descritores do Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), intercalados com os operadores booleanos “AND” e “OR”: “HIV OR Aids AND Angola. Os artigos foram selecionados através da leitura dos títulos e dos resumos por dois autores e, posteriormente, comparados para garantir a validação do procedimento. 20 artigos foram incluídos. Em relação à afiliação dos primeiros autores dos artigos, nove tinham afiliação com instituições angolanas e 11 com outros países (seis de Portugal, três da Itália e dois do Brasil). Sete estudos referiram ter algum tipo de financiamento. Quanto à abrangência dos estudos, em relação à amostra, observou-se que 14 tinham abrangência Local (em geral de um município ou província) e seis de abrangência nacional. Das pesquisas com abrangência local, 9 foram realizadas na província de Luanda, onde fica a capital do país, e somente outras duas províncias, das 21 existentes, também apresentaram estudos. A maioria dos estudos (n=15) incluiu ambos os sexos. Quanto ao tamanho da amostra, cinco estudos investigaram mais de 500 sujeitos, mesmo valor de amostras de 1 a 50 sujeitos. Em relação à faixa etária, onze estudos incluíram apenas adultos, quatro com adolescentes e adultos e três crianças. Sete estudos foram de delineamento transversal, quatro observacionais retrospectivos, três de intervenção, dois moleculares, além de terem sido encontrados um estudo com cada um destes delineamentos: revisão sistemática, qualitativo, validação e estudo de série temporal. 15 estudos tiveram abordagem quantitativa, dois qualitativas e dois abordagem mista. Os temas mais investigados foram: Diversidade Genética e resistência aos medicamentos (n=6), estratégias de intervenção (n=3) e transmissão vertical (n=3). Em síntese, pesquisas sobre HIV/Aids em Angola encontram-se em fase de consolidação, com avanços na produtividade, mas que ainda demanda diversificação metodológica, descentralização geográfica.
PERCEPÇÕES DOS SUPERVISORES DO PROGRAMA HIV/AIDS SOBRE OS MOTIVOS QUE LEVAM AS PESSOAS QUE VIVEM COM HIV À INTERRUPÇÃO DA TERAPIA ANTIRRETROVIRAL EM ANGOLA
EDNA ESPERANÇA MATAMBAMIGUEL FONSECA, Mathias Roberto Loch
Data da defesa: 26/02/2026
A epidemia de HIV/Aids permanece um desafio global e, em Angola, é generalizada, com prevalência superior a 1%. Os supervisores do programa HIV/Aids, responsáveis por coordenar e monitorar as atividades relacionadas ao HIV/Aids em nível provincial e municipal, desempenhem papel essencial na resposta à epidemia em Angola. Apesar da eficácia da Terapia Antirretroviral (TARV), a interrupção do tratamento ainda constitui um obstáculo para o controle da infecção. Objetivo: Avaliar as percepções dos Supervisores sobre os motivos que levam as pessoas que vivem com HIV (PVHA) a interrupção da TARV em Angola. Metodologia: Trata-se de um estudo transversal descritivo de abordagem quantitativa, de amostra intencional no qual foram considerados elegíveis 182 supervisores sendo 18 do nível provincial e 164 do nível municipal. A coleta de dados ocorreu entre os meses de julho e agosto de 2025, por meio de um questionário estruturado, contendo questões referentes ao perfil sociodemográfico e profissional dos participantes e percepções acerca dos fatores associados à interrupção da TARV. Os fatores foram agrupados em três categorias analíticas: intrínsecos, extrínsecos e relacionados ao sistema de saúde. Realizou-se análise descritiva das variáveis sociodemográficas e profissionais, e análise de associação entre as percepções de “influência/influência muito” e variáveis contextuais, como a função exercida e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das províncias de atuação. As questões abertas foram submetidas à análise categorial. Ao final, totalizaram-se 133 respostas, das quais 16 dos supervisores provinciais e 117 dos supervisores municipais. Entretanto foram excluídas 8 respostas por não atenderem aos critérios de inclusão, resultando em uma amostra final de 125 participantes. Resultados: O fator condições socioeconômicas desfavoráveis (88%), pertencente ao grupo dos fatores extrínsecos, foi o que apresentou, em geral, maior frequência de percepções dos profissionais como influente para a interrupção da TARV, sendo seguido pelos fatores estigma social e preconceito (73,6%) e influência de crenças culturais e religiosas (72,8%). Entre os fatores intrínsecos, o fator vergonha ou preconceito internalizado (87%) foi o que apresentou maior frequência de percepções dos participantes como influente para a interrupção da TARV, seguido pelo fator sentir-se bem, sem nenhum sinal (75,2%) e pelo fator dificuldade em aceitar o diagnóstico (65,6%). No grupo dos fatores relacionados ao sistema de saúde, os fatores com maior frequência de apontamentos como influentes para a interrupção da TARV foram, dificuldade de acesso às unidades por limitações estruturais ou logísticas (54,4%) e ausência de grupos de apoio organizados pelos serviços (49,6%).Em províncias com IDH mais elevado, observou-se equilíbrio entre fatores intrínsecos e extrínsecos, enquanto os fatores relacionados ao sistema de saúde apresentaram menor expressividade. As questões abertas revelaram fatores adicionais que segundo as percepções dos profissionais também são influentes para a interrupção da TARV, tratando-se da presença de doenças associadas, transumância/nomadismo, insegurança alimentar, insuficiência de recursos humanos e rotatividade de profissionais. Conclusão: A interrupção da TARV configura-se como fenômeno multifatorial, resultante da interação entre determinantes individuais, sociais, estruturais e organizacionais, variando conforme o contexto de vida das pessoas que vivem com HIV.
CARACTERÍSTICAS DOS ENCAMINHAMENTOS AO CAPS E FATORES ASSOCIADOS À INSERÇÃO E AO ABANDONO DO ACOMPANHAMENTO
LUISA GUEDES DI MAURO, Alberto Durán Gonzalez, Carlos Guilherme Meister Arenhart
Data da defesa: 27/02/2026
Introdução: A Reforma Psiquiátrica redefiniu o cuidado em saúde mental no Brasil ao substituir o modelo hospitalocêntrico pelo Paradigma Psicossocial e ao organizar a Rede de Atenção Psicossocial de forma territorial e integrada. Apesar dos avanços, persistem fragilidades nos encaminhamentos, na articulação entre serviços e na continuidade do cuidado. Assim, compreender como esses fluxos operam na prática é essencial para qualificar a rede e fortalecer o cuidado em liberdade. Objetivo: Descrever o perfil dos usuários encaminhados a um Centro de Atenção Psicossocial I de um município de pequeno porte, as características dos encaminhamentos e analisar os fatores associados à inserção e ao abandono do acompanhamento no CAPS. Método: Trata-se de um estudo descritivo-analítico, retrospectivo, de abordagem quantitativa, realizado no Centro de Atenção Psicossocial I (CAPS I) de um município de pequeno porte do norte do Paraná. Foram analisados 708 prontuários de usuários acolhidos entre 2021 e 2025. Para as análises relacionadas à trajetória assistencial, foram considerados os acolhimentos realizados até junho de 2023, garantindo período mínimo de dois anos de acompanhamento. Foram coletadas variáveis sociodemográficas, clínicas, características dos encaminhamentos e informações sobre o percurso assistencial dos usuários no serviço. Os desfechos analisados foram a inserção para acompanhamento no CAPS e o abandono do tratamento. Realizaram-se análises descritivas por medidas de frequência, testes de associação e modelos de regressão logística binária para identificação dos fatores associados aos desfechos. Resultados: Predominaram encaminhamentos de mulheres jovens adultas, brancas, solteiras e trabalhadoras. A APS foi responsável por mais da metade dos encaminhamentos, sobretudo realizados por clínicos gerais. A maior parte dos usuários possuía histórico de tratamento em saúde mental e a maioria dos encaminhamentos foram motivados por queixas ansiosas e depressivas. Observou-se fragilidade nos encaminhamentos, com registros incompletos e ausência da Estratificação de Risco em Saúde Mental (ERSM). O tempo entre encaminhamento e acolhimento foi majoritariamente curto. Risco suicida e uso de substâncias psicoativas aumentaram a chance de inserção no CAPS, enquanto sintomas depressivos e ansiosos isolados reduziram essa probabilidade. Dos 708 usuários, 59,7% foram inseridos (com elaboração de PTS) e 40,3% redirecionados a outros pontos da rede. Nos reacolhimentos, a demanda espontânea foi a principal porta de entrada. A maioria dos acompanhamentos durou até seis meses, e o abandono foi elevado: 72,3% dos PTS foram interrompidos, sendo 26,1% logo após o acolhimento. O abandono esteve associado principalmente ao uso de substâncias psicoativas. Conclusão: A trajetória dos usuários na RAPS é influenciada por fatores clínicos e sociais, mas também pela efetividade dos serviços e pelo grau de integração entre eles. Fragilidades nos encaminhamentos e na articulação da rede podem dificultar o acesso ao cuidado adequado, comprometendo o vínculo, a continuidade e a efetividade do tratamento. Nesse sentido, qualificar os encaminhamentos, fortalecer a resolutividade da APS e aprimorar estratégias cooperativas entre os pontos de atenção tornam-se essenciais para garantir percursos terapêuticos coerentes com as necessidades dos usuários
O PAPEL DO APOIO INSTITUCIONAL NA PRODUÇÃO DE AUTONOMIA PARA GESTORES DO SUS EM MUNICÍPIOS DE PEQUENO PORTE
JULIANA FERREIRA CANASSA CAMPITELLI, Fernanda de Freitas Mendonça
Data da defesa: 10/03/2026
Esta dissertação analisa o papel do apoio institucional no contexto da gestão do Sistema Único de Saúde em municípios de pequeno porte, à luz da Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire. Nesse contexto, o apoio institucional é compreendido como um dispositivo pedagógico e político que atua na mediação entre a burocracia e a prática cotidiana, convertendo orientações técnicas em possibilidades concretas de gestão e aprendizado. Parte-se do seguinte problema de pesquisa: como o apoio institucional contribui para a produção de autonomia de gestores do Sistema Único de Saúde em municípios de pequeno porte? A pesquisa foi orientada por uma matriz teórica inspirada nos princípios freirianos da Pedagogia da Autonomia, estruturada em elementos como a valorização dos saberes prévios, o diálogo constante, a construção coletiva, a produção de reflexão crítica sobre a realidade, o respeito ao contexto local e à apreensão da realidade, o saber escutar, o estímulo ao protagonismo dos atores e a disponibilidade para a mudança. Essa matriz orientou a análise das narrativas e experiências de gestores e apoiadores, permitindo compreender como o apoio institucional se configura como espaço de escuta, troca e construção compartilhada de saberes. Os resultados demonstram que o apoio institucional não apenas oferece suporte técnico, mas também desencadeia processos formativos que favorecem a conscientização e o fortalecimento da autonomia dos gestores. Ao provocar a reflexão crítica e o diálogo sobre o cotidiano da gestão, o apoiador institucional estimula a transformação das práticas e a ampliação do protagonismo local. Outro resultado encontrado foi o caráter gradual e processual da produção da autonomia, tensionado por limitações estruturais, como interferências políticas, questões relacionadas ao processo de trabalho e às interações com diferentes atores que compõem o campo da gestão. Conclui-se que o apoio institucional representa, simultaneamente, uma ferramenta técnica, um espaço pedagógico e uma prática política. Inspirado pela Pedagogia da Autonomia, ele concretiza a educação como prática de liberdade e reafirma a autonomia como um movimento contínuo, inacabado e coletivo, sustentado pelo diálogo, pela escuta e pela reflexão crítica sobre a realidade.
ANÁLISE ECONÔMICA DO USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA ATENÇÃO À SAÚDE: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA
LUCAS EDUARDO CARNEIRO, Renne Rodrigues, Rafaela Sirtoli
Data da defesa: 27/02/2026
Introdução: A incorporação de tecnologias digitais no setor saúde, especialmente a inteligência artificial, tem avançado rapidamente diante dos desafios crescentes de sustentabilidade, escassez de recursos e necessidade de melhorar a resolutividade na atenção primária e secundária. Desta forma, torna-se urgente a compreensão do desempenho clínico dessas ferramentas e sua viabilidade econômica, dado que sua adoção pode impactar significativamente o financiamento e a organização dos sistemas de saúde. Objetivo: Reunir evidências sobre as análises econômicas envolvendo o uso de inteligência artificial relacionadas à atenção primária em saúde e atenção secundária em saúde. Método: Conduziu-se uma revisão sistemática segundo o protocolo do Joanna Briggs Institute, registrada no PROSPERO (CRD42024593841), sem restrição de idioma, data ou país. Resultados: Foram consultadas oito bases de dados, gerando um total de 1.432 artigos, após triagem e leitura completa, 18 estudos foram incluídos. A síntese mostrou que a maior parte dos trabalhos são provenientes de países de alta renda, e a maioria avaliou tecnologias de inteligência artificial voltadas ao diagnóstico por imagens, destacando-se aquelas aplicadas à análise de retina e detecção de lesões precursoras. A maioria utilizou análise de custo-efetividade como método econômico e relatou dominância da tecnologia, ou seja, menor custo associado a um aumento de anos de vida ajustados por qualidade ou maior acurácia diagnóstica. Discussão: No entanto, diversos estudos apresentaram fragilidades metodológicas, como ausência de estimativas de significância estatística, uso de dados assumidos pelos autores, falta de padronização de conceitos e omissão de variáveis estruturais relevantes, como custos de infraestrutura, segurança da informação e sustentabilidade ambiental. Os achados indicam que ferramentas de inteligência artificial possuem potencial para otimizar gastos e melhorar resultados clínicos, especialmente em aplicações diagnósticas, porém carecem de evidências robustas, padronizadas e com melhor controle de incertezas para subsidiar decisões de incorporação tecnológica de forma segura e sustentável. Conclusão: Apesar do
aparente custo-benefício, recomenda-se cautela na extrapolação dos resultados, além da necessidade de estudos mais consistentes, contextualizados para diferentes realidades e que incorporem perspectivas ampliadas de análise econômica.
CONSÓRCIOS PÚBLICOS INTERMUNICIPAIS DE SAÚDE E CONTROLE EXTERNO: ANÁLISE DA ATUAÇÃO NO PARANÁ
ALESSANDRA DE OLIVEIRA LIPPERT, Fernanda de Freitas Mendonça
Data da defesa: 25/09/2025
A gestão do sistema de saúde descentralizado implica na transferência do poder decisório
das esferas federal e estadual para os municípios. As Leis Orgânicas da Saúde apontam
os Consórcios Públicos Intermunicipais de Saúde (CPIS) como estratégia frente aos
limites da municipalização. A Lei Federal nº 11.107/2005 instituiu um novo regime
jurídico aos consórcios públicos, configurando-os como instrumentos de cooperação
federativa dotados de personalidade jurídica, capazes de contrair obrigações e exercer a
gestão de serviços públicos de forma compartilhada. Esse novo paradigma institucional
no espaço interfederativo impõe desafios significativos aos órgãos de controle externo,
como o Ministério Público e os Tribunais de Contas, os quais precisam ajustar suas
práticas fiscalizatórias à complexidade da ação consorciada. Esta pesquisa inova ao
analisar as ações dos órgãos de fiscalização e controle externo e suas implicações na
gestão dos arranjos consorciados. O estudo adotou uma abordagem qualitativa, de
natureza exploratória, realizado entre 2022 e 2023. Foram utilizadas técnicas de análise
documental e entrevistas com sete atores estratégicos: dois dirigentes e dois controladores
internos de CPIS, dois promotores de justiça do Ministério Público do Paraná (MP-PR) e
um técnico do Tribunal de Contas do Paraná (TCE-PR). O estudo ocorreu no estado do
Paraná, que conta com 22 regiões de saúde nas quais atuam um ou mais CPIS. A análise
documental foi realizada sobre 52 documentos (40 do MP-PR e 12 do TCE-PR), que
incluiu a metodologia de análise preliminar conforme Cellard (2008), considerando
autoria, autenticidade, natureza, conceitos-chave, contexto e lógica interna, em seguida,
aplicou-se a análise de conteúdo segundo Bardin (2009). O conteúdo das entrevistas foi
analisado seguindo a abordagem de análise de discurso proposta por Martins e Bicudo
(2005), com identificação de unidades de significado e posterior articulação em categorias
analíticas. A combinação das categorias documentais e discursivas permitiu construir um
quadro comparativo, viabilizando o mapeamento da atuação dos órgãos de fiscalização e
controle externo sobre os CPIS. A análise documental evidenciou que o TCE-PR
concentrou sua atuação em temas relacionados à fiscalização e transparência, enquanto o
MP-PR demonstrou ênfase na tutela de direitos individuais. Os resultados da análise
combinada apontam que as ações dessas instituições vêm contribuindo para a
padronização de procedimentos e o aprimoramento da gestão consorciada, porém, em
alguns momentos essas ações ocorrem em um contexto de tensão entre autonomia local
e exigência de accountability, em que a governança dos CPIS é atravessada por interações
complexas entre gestores e os órgãos de controle. Verificou-se que essa atuação assume
caráter bidimensional, ora marcado por um eixo punitivo, centrado na responsabilização
e correção de irregularidades, ora por um eixo orientativo, voltado à indução de melhorias
na gestão e à consolidação de práticas mais transparentes. Identificou-se também um certo
confundimento institucional quanto ao papel e ao regime jurídico dos CPIS, o que
contribui para explicar a origem e a persistência das tensões nas relações entre consórcios
e órgãos de controle. Com base nessa análise, observa-se que a governança consorciada
demanda articulação institucional, clareza normativa e práticas de gestão compartilhada,
nas quais o diálogo, a corresponsabilidade e a transparência se tornam essenciais. Os
referenciais do federalismo cooperativo e do neo-institucionalismo histórico permitiram
compreender os condicionantes institucionais que moldam a ação dos CPIS e dos órgãos
de controle, evidenciando padrões de continuidade e mudança, bem como os efeitos da atuação fiscalizatória na configuração das regras e na condução da política pública em
saúde. Conclui-se que a tese alcançou seu objetivo ao demonstrar como a atuação dos
órgãos de controle externo tem implicado diretamente na reorganização da gestão
consorciada, influenciando seus aspectos operacionais, jurídicos e institucionais. A
pesquisa reforça o papel estratégico dos CPIS como instrumentos de cooperação
federativa e de fortalecimento da gestão regionalizada em saúde, ao mesmo tempo que
aponta a necessidade de aprimoramento das práticas institucionais dos órgãos de controle
e de sua maior aproximação com os consórcios, promovendo uma governança pública
mais integrada, responsável e eficiente.
DA ATENÇÃO BÁSICA A UMA REDE DE CUIDADOS PALIATIVOS
BEATRIZ ZAMPAR, Regina Melchior, Josiane Vivian Camargo de Lima
Data da defesa: 24/06/2025
Cuidados paliativos são compreendidos como uma modalidade de cuidado voltada
ao alívio do sofrimento e à promoção de conforto e qualidade de vida a pessoas que
convivem com doenças que ameaçam a continuidade da vida, bem como às suas
famílias, considerando todas as dimensões do sofrimento humano: física, emocional,
social-familiar e espiritual. Esta tese tem como objetivo mapear a construção de uma
rede de cuidados paliativos a partir da Atenção Básica (AB), no contexto do Sistema
Único de Saúde (SUS), situando-se em uma experiência no município de
Londrina/PR. A pesquisa está fundamentada nos referenciais da micropolítica do
cuidado e do trabalho em saúde, especialmente nas contribuições de Emerson
Merhy, Laura Feuerwerker, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Baruch
Espinosa. Esse percurso se fez por meio da cartografia, acompanhando processos
vivos de produção do cuidado, captando o vivido, o sensível e o singular que
atravessa os sujeitos implicados na construção de uma rede viva. O cuidado
paliativo é analisado como uma prática ética, coletiva e situada, que tensiona
regimes de verdade instituídos pela racionalidade biomédica e abre espaço para
novas formas de viver, cuidar e resistir. Nesse contexto, propõe-se o conceito de
cuidado total como prática que ultrapassa o atendimento das dimensões da dor total,
ao integrar uma postura radical de reconhecimento da vida em sua integralidade —
articulando escuta, vínculo, desejo, espiritualidade, política, território e redes vivas,
especialmente diante da finitude. A análise inclui registros de encontros com
usuários, trabalhadores, gestores e estudantes; os movimentos de construção de
coletivos; a articulação da rede por meio de um grupo de trabalho intersetorial; a
implementação de um programa municipal e as estratégias de educação
permanente. Evidenciam-se os desafios políticos, institucionais e subjetivos que
atravessam a consolidação de uma política pública de cuidados paliativos a partir da
Atenção Básica, bem como a potência dos encontros e das tecnologias leves como
disparadoras de novos modos de produzir cuidado. O foco está na cartografia dos
territórios produzidos, desfeitos e refeitos nos processos de adoecer e de morrer —
e na possibilidade de continuar existindo, resistindo e cuidando enquanto há vida, e
de ressignificar o que existe depois dela para quem fica.
A GESTÃO ORÇAMENTÁRIA DA SAÚDE E O PAPEL DOS MUNICÍPIOS: UMA PESQUISA-AÇÃO, A PARTIR DA EDUCAÇÃO PERMANENTE EM SAÚDE, EM UMA MACRORREGIÃO DO ESTADO DO PARANÁ.
TALITA MARIA BENGOZI GOZI, Brigida Gimenez Carvalho, João Felipe Marques da Silva
Data da defesa: 03/07/2025
O financiamento do SUS sempre foi um desafio e gerir este complexo sistema requer conhecimento técnico e ousadia por parte dos gestores. Operacionalizar um dos maiores orçamentos públicos de um governo traz grandes preocupações e reponsabilidades. Isso demonstra a necessidade de processos educativos sobre gestão orçamentária para gestores e equipes gestoras municipais da saúde. O objetivo da pesquisa foi analisar o processo de planejamento orçamentário da saúde de municípios da macrorregião norte do Paraná e contribuir para sua qualificação. Trata-se de uma pesquisa-ação, envolvendo dois momentos. O momento 1 compreendeu a fase exploratória e fase da pesquisa aprofundada da pesquisa-ação. A fase Exploratória foi realizada por meio de entrevistas com roteiro semiestruturado, com gestores e contadores de nove municípios da macrorregião norte do Paraná com questões relacionadas ao processo de planejamento e orçamento da saúde. As entrevistas foram gravadas e transcritas e aconteceram de forma presencial nos municípios, no período de junho a setembro de 2022. A fase de pesquisa Aprofundada foi desenvolvida a partir da análise dos resultados da fase exploratória e a partir da análise foram identificadas as necessidades de aprofundamento dos temas emergidos nas entrevistas e definidos os conteúdos/temáticas das oficinas. O momento 2 contemplou as etapas das fases de Ação e de Avaliação da pesquisa-ação. Na fase de Ação foram realizadas oficinas de Educação Permanente em Saúde (EPS). Quatro oficinas foram realizadas com a participação de equipes gestoras de cinco municípios da macrorregião norte. Os sujeitos das oficinas foram 13 participantes, destes, três ocupavam cargo de gestores e quatro deles cargo de diretores, dois administrativos, um enfermeiro, um coordenador, um contador e um tecnólogo. As oficinas aconteceram de forma presencial, com duração de seis horas cada, no período de novembro de 2023 a abril de 2024. A fase de Avaliação aconteceu de três formas. A primeira, por meio da atividade de dispersão, na qual ao final de cada oficina os participantes recebiam uma atividade para realizarem em seus municípios e trazerem no próximo encontro. A segunda, consistia em uma ficha de avaliação aplicada ao final de cada oficina. E a terceira aconteceu por meio de visita aos municípios, onde foram realizadas entrevistas com roteiro temático. O referencial teórico utilizado para análise dos dados foi a hermenêutica crítica, proposta por Paul Ricouer e interpretados com apoio do referencial do federalismo e da Educação Permanente em Saúde. Os resultados da fase Exploratória demonstraram a necessidade de melhor qualificação das equipes técnicas da saúde para execução orçamentária nos municípios. Esse cenário justificou a intervenção junto aos municípios por meio das oficinas de EPS com foco em temas relacionados ao financiamento da saúde, nas regras dos repasses e execução dos recursos federais; planejamento e instrumentos de gestão; na nova lei de licitações, que impacta diretamente no planejamento das compras e contratações dos municípios e nos fundamentos essenciais para construção e execução do orçamento. Os resultados revelaram que participantes de modo geral avaliaram de forma positiva as oficinas, alguns enfatizaram a necessidade desses processos serem permanentes, e por serem municípios pequenos, com equipes enxutas, muitas vezes não conseguem acompanhar as atualizações que a gestão pública exige. Durante o processo de formação foi possível verificar que as oficinas provocaram mudanças nos processos de trabalho. Na percepção dos participantes, as oficinas que tiveram conteúdos mais práticos foram as melhores avaliadas, pois trouxeram concretude e aplicação imediata junto às suas equipes. Reconheceram que precisam se apropriar mais de assuntos relacionados ao financiamento e gestão do orçamento. As complexas relações com os demais departamentos da prefeitura e a prática da alternância de cargos que acontece a cada novo governo que instala, interferem diretamente para que os conhecimentos adquiridos em processos de formação em EPS sejam aplicados no serviço. A gestão orçamentária, por mais complexa que seja, se mostrou como uma atividade possível de as equipes gestoras se apropriarem. Faz-se necessário que mais intervenções pela metodologia de EPS sejam ofertadas para gestores de saúde e também para as equipes de contabilidade e financeira das prefeituras.
A RELAÇÃO ENTRE BURNOUT, APOIO SOCIAL, RESILIÊNCIA E O CONSUMO DE PSICOFÁRMACOS ENTRE ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS
TELMA REGINA FARES GIANJACOMO A, Edmarlon Girotto, Renne Rodrigues
Data da defesa: 26/06/2025
Introdução: A saúde mental entre estudantes universitários é uma preocupação crescente, especialmente com o aumento das pressões acadêmicas que favorece a problemas como burnout, e pode afetar negativamente seu bem-estar e rendimento. Na tentativa de atenuar o sentimento de esgotamento emocional, estudantes podem fazer uso de psicofármacos como uma forma de lidar com o estresse da jornada acadêmica. Fatores como o apoio social e a resiliência são fundamentais para ajudar os estudantes a lidarem com esses desafios. Objetivo: O presente estudo objetivou analisar a relação do consumo de psicofármacos com o burnout acadêmico, resiliência e apoio social e verificar o papel mediador da resiliência no efeito do suporte social e a relação com o burnout acadêmico entre estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Método: Trata-se de um estudo epidemiológico de abordagem quantitativa. A população foi composta por 2.817 estudantes de graduação regularmente matriculados no primeiro semestre de 2019 da Universidade Estadual de Londrina. A coleta de dados ocorreu no período de abril a junho de 2019, por meio de um questionário online, que resultou em uma tese em modelo escandinavo contendo dois artigos. O primeiro artigo foi desenvolvido por meio de uma análise de mediação entre a apoio social, resiliência e o burnout. A variável dependente deste estudo foi a exaustão acadêmica, a independente foi o apoio social, e a mediadora foi a resiliência. Foram realizadas análise fatorial exploratória (AFE) e confirmatória (AFC) para obter o modelo com melhores resultados através do software Mplus®, com intervalo de confiança de 95% (IC95%). O segundo artigo foi desenvolvido por meio de uma análise da associação entre a consumo de psicofármacos, burnout, apoio social e resiliência, no qual a variável desfecho foi o uso de psicofármacos, baseado na classificação Anatomical Therapeutic Chemical (ATC) e as independentes foram o burnout, o apoio social, resiliência. A análise dos dados foi realizada utilizando o programa SPSS® versão 25.0, com a aplicação de testes estatísticos, incluindo o teste de Qui-quadrado de Pearson, o teste de Mann-Whitney e a regressão logística de Poisson com variância robusta para a obtenção do beta como medida de associação e intervalo de confiança de 95% (IC95%) e o nível de significância adotado foi de 5% (p-valor <0,05). Análises brutas e ajustadas foram realizadas, os modelos ajustes foram definidos a partir de um Diagrama Acíclico Dirigido (DAG), elaborado no DAGitty com base em pressupostos teóricos. A inclusão de variáveis nos modelos foi avaliada por meio do teste de razão de verossimilhança (LRT), e testou-se também a presença de interações multiplicativas. A multicolinearidade foi verificada pelo índice de variância inflacionada (VIF). Modelos específicos foram construídos para burnout, apoio social (dimensões) e resiliência, ajustando-se por covariáveis sociodemográficas, acadêmicas, comportamentais e de saúde, conforme evidências da literatura Resultados: Artigo 1 - O apoio social total afetou significativamente e positivamente a resiliência, enquanto a resiliência teve um efeito negativo significativo no burnout. Observou-se que tanto o efeito direto do suporte social no burnout quanto o efeito indireto do suporte social no burnout por meio da resiliência foram significativos, a resiliência medeia essa relação em aproximadamente 54,9%. Artigo 2- Observou-se que maiores níveis de burnout pessoal, burnout relacionado aos estudos e burnout relacionado aos professores estiveram significativamente associados ao maior uso de psicofármacos. Por outro lado, o burnout relacionado aos colegas não manteve associação significativa após o ajuste. Nenhuma das dimensões do apoio social apresentou associação estatisticamente significativa com o uso de psicofármacos. Da mesma forma, a resiliência, não mostrou associação significativa com o desfecho. Ainda que esses fatores não tenham se associado estatisticamente ao uso de psicofármacos neste estudo, a literatura destaca que tanto o apoio social quanto a resiliência são elementos fundamentais de proteção frente ao burnout acadêmico. Conclusão: O estudo revelou que o apoio social e a resiliência influenciam o burnout acadêmico, com a resiliência mediando essa relação. A pesquisa também mostrou que estudantes com maiores níveis mais elevados de burnout pessoal, burnout relacionado aos estudos e burnout relacionado aos professores apresentaram maior uso de psicofármacos. As dimensões do apoio social e a resiliência, apesar de reconhecidas na literatura como fatores protetores, não apresentaram associação estatisticamente significativa com o uso de psicofármacos. Os achados sugerem que o sofrimento psicológico relacionado ao esgotamento acadêmico pode estar diretamente associado ao uso de medicamentos psicotrópicos como forma de enfrentamento. Nesse contexto, estratégias institucionais que promovam a saúde mental, com foco no fortalecimento da resiliência e na ampliação das redes de apoio social, podem representar alternativas eficazes à medicalização do sofrimento psíquico entre estudantes universitários.