Teses e dissertações

O Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) representa um desafio crescente de saúde pública, especialmente entre idosos, exigindo um manejo contínuo onde o autocuidado (AU) é fundamental. Contudo, a eficácia do AU depende da literacia em saúde (LS) do paciente, que frequentemente é uma barreira nesta população. Diante disso, o objetivo geral deste estudo foi analisar o autocuidado e a literacia em saúde de indivíduos idosos que convivem com o DM2 assistidos pela Atenção Primária em Saúde. Trata-se de um estudo transversal realizado com 60 idosos com DM2, residentes no munícipio de Sabáudia-PR. Foram aplicados um questionário sociodemográfico e clínico, o Spoken Knowledge in Low Literacy Patients with Diabetes (SKILLD) para avaliar a LS e o Questionário de Atividades de Autocuidado com o Diabetes (QAD) para o AU. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva, teste qui-quadrado e Regressão de Poisson com variância robusta. A amostra apresentou idade média de 69,07(6,89), baixa escolaridade, literacia insuficiente sobre a doença. A análise bivariada revelou associações estatisticamente significativas entre a LS inadequada e a baixa escolaridade (p=0,027), a não participação em grupos de educação em saúde (p=0,020) e baixa adesão ao AU (p=0,040). A adesão ao AU (até 3 dias) foi significantemente maior em quem depende de terceiros para comprar/retirar medicação (p=0,02). A análise de regressão confirmou que a LS adequada quase dobrou a prevalência de adesão ao AU (RP ajustada: 1,94) e que a não participação em grupos de educação em saúde reduziu a prevalência de LS adequada em 85% (RP ajustada: 0,15). Conclui-se que a literacia em saúde inadequada é uma barreira determinante para o autocuidado em idosos com DM2, impactando diretamente práticas que exigem mudança comportamental. A dependência de terceiros e a ausência em grupos educativos emergem como indicadores de risco, reforçando a necessidade de estratégias na APS focadas no empoderamento e autonomia do paciente.
O Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB), elaborado pelo Ministério da Saúde, constitui um importante referencial para ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) no contexto escolar. Contudo, estudos indicam limitações no conhecimento desse documento e na autoeficácia para utilizá-lo entre profissionais da educação básica. Este estudo transversal objetivou avaliar o conhecimento e a percepção de autoeficácia desses profissionais em relação ao GAPB. Participaram 373 profissionais elegíveis das 10 escolas e 11 centros municipais de educação infantil de Ivaiporã (PR), abrangendo diferentes categorias. Os dados foram coletados por meio dos questionários validados GAB1 (conhecimento sobre o GAPB) e GAB2 (autoeficácia docente), este último aplicado exclusivamente aos professores. A análise foi realizada no software SPSS versão 22.0, utilizando estatística descritiva (frequências, percentuais) e testes de associação (qui-quadrado de Pearson e teste exato de Fisher quando aplicável), adotando nível de significância de 5% (p < 0,05). Os resultados revelaram diferenças significativas no conhecimento elevado (≥13 acertos no GAB1) entre categorias profissionais (p = 0,037), com maiores proporções entre professores (61,0%) e pós-graduados (65,0%). O conhecimento associou-se significativamente à idade (p = 0,013) e ao tempo de serviço (p = 0,037), mas não a gênero, cor/raça, escolaridade ou vínculo trabalhista. Quanto à autoeficácia (GAB2), apenas 36,3% dos docentes apresentaram níveis elevados, com maior proporção entre aqueles de 31 a 40 anos (39,7%) e menor entre profissionais com mais de 21 anos de tempo de serviço (2,7%). As diferenças no conhecimento e na autoeficácia em relação ao GAPB associaram-se à função exercida, idade e trajetória profissional, destacando a necessidade de ações de formação continuada para otimizar o uso do Guia no ambiente escolar.
A inserção dos profissionais de Educação Física tem se intensificado na Saúde Coletiva. Contudo, persistem desafios na formação voltada a este campo. Nesta perspectiva a pós-graduação Stricto-Sensu, nível de mestrado surge como alternativa de qualificação, embora o conhecimento sobre a trajetória desses egressos ainda represente uma lacuna na literatura cientifica. O objetivo deste trabalho foi verificar a trajetória profissional de mestres em Saúde Coletiva e Saúde Pública com formação inicial em Educação Física no Brasil. Para tanto, foi realizado um estudo de delineamento transversal, descritivo e quantitativo com egressos de Mestrado Acadêmico em Saúde Coletiva e Saúde Pública no âmbito Nacional. Inicialmente foram identificados 35 programas. Em um projeto anterior, onde foram catalogados dados de 8217 dissertações e a(s) respectiva(s) formação(ões) inicial(is) dos autores (em nível de graduação), observou-se que 189 sujeitos tinham formação inicial em Educação Física, sendo estes os elegíveis para o presente estudo. Foi elaborado um questionário online constando questões sobre o perfil, formação acadêmica, inserção profissional e importância do mestrado sobre a carreira profissional e enviado para os elegíveis do estudo, seja a partir dos respectivos programas ou via contato direto com endereções eletrônicos encontrados em buscas realizadas na web. Para análise dos dados foi realizada estatística descritiva das variáveis, com distribuição de frequências absolutas e relativas e para analisar a evolução temporal das variáveis, com os dados agrupados em quinquênios, considerando o ano de término do mestrado, assim: Quinquênio 1 (Q1) =2010-2014; Quinquênio 2 (Q2) = 2015-2019; Quinquênio 3 (Q3) = 2020-2024. Responderam ao formulário, 113 sujeitos (taxa de resposta = 59,8%). A maioria era do sexo feminino (53,1%), mulher ou homem cis (97,3%) e autodeclarado de cor branca (54,9%). Cerca de metade (50,4%) tinham cursado o ensino médio totalmente em escola pública, com aumento proporcional ao longo dos períodos (de 39,4% no Q1 para 67,9% no Q3). Em relação a área à qual a dissertação está vinculada a Epidemiologia foi predominante (54,0%), mas apresentou um declínio percentual (de 72,7% no Q1 para 39,3% no Q3), enquanto observou-se crescimento das Ciências Humanas e Sociais (de 12,1% no Q1 para 35,7% no Q3). Quanto às experiências antes do mestrado, 51,3% referiram que a graduação não abordou conteúdos do Sistema Único de Saúde, mesmo percentual dos que referiu que não ter tido experiências na formação inicial com outras profissões. 26,0% realizaram residência multiprofissional, cuja participação aumentou na comparação dos quinquênios (de 6,0% no Q1 para 32,1% no Q3). 57,5% tinham atuado anteriormente ou estavam atuando como docentes universitários no momento da coleta, tendo se observado diminuição ao longo dos quinquênios (54,5% no Q1 para 17,9% no Q3) e 26,4% atuaram na área de gestão. A percepção sobre o mestrado em relação ao trabalho atual, foi positiva, com 80,5% considerando “muito importante” ou “importante” e a maioria (61,9%) estava satisfeita com as condições de trabalho atuais. Mesmo diante das lacunas evidenciadas na formação inicial, a trajetória dos egressos de Educação Física em Saúde Coletiva, revela expressiva atuação nas áreas de docência e gestão e menor presença em cargos assistenciais, bem como uma percepção positiva do mestrado em relação a carreira profissional.
A promoção da alimentação adequada e saudável constitui uma estratégia essencial para a promoção da saúde e a melhoria da qualidade de vida da população. Nesse contexto, o Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB) se destaca como um instrumento fundamental de orientação e promoção de práticas alimentares saudáveis. A Atenção Primária à Saúde (APS), por sua vez, exerce um papel estratégico na implementação dessas diretrizes. O objetivo deste estudo foi verificar o conhecimento dos profissionais de saúde da APS sobre o GAPB. Foi realizado um estudo transversal, de amostragem por conglomerados com 373 profissionais de saúde atuantes na APS do município de Londrina – PR. Foi aplicado um questionário sociodemográfico, perguntas relacionadas ao trabalho e a escala GAB1 que possui 16 perguntas (de 0 a 16 pontos) com objetivo de investigar o conhecimento sobre o conteúdo do GAPB. Para a análise descritiva, usou-se a distribuição de frequências absoluta e relativa. Utilizou-se o teste de Shapiro Wilk para testar a normalidade das variáveis e na comparação de medianas, foi realizado teste de Mann Whitney para dois grupos e Kruskall Wallis para as variáveis com mais de dois grupos. Para analisar o nível de acertos das questões sobre o GAPB de acordo com a categoria profissional utilizou-se o teste Qui-Quadrado. A média e mediana de conhecimento dos profissionais de saúde atuantes na APS de Londrina – PR foi de 11 e 12, respectivamente. O conhecimento associou-se positivamente com ser Nutricionista – maior conhecimento em nove das 16 questões do instrumento e com profissionais com menos de 10 anos de atuação na APS. A média aumentou conforme o maior nível de escolaridade e maior frequência de uso das práticas de cuidado da APS (p valor <0,05). Ao comparar o nível de conhecimento sobre o GAPB por profissão, as maiores medianas foram do grupo de Nutricionistas (14), Profissionais de Educação Física (14) e Médicos(as) (13). Houve diferença significativa apenas no grupo de Nutricionistas e Médicos(as), quando comparada às médias dos ACS, Auxiliar/Técnico em Enfermagem e Auxiliar/Técnico em Saúde Bucal. Os profissionais da APS de Londrina apresentaram níveis de conhecimento sobre o GAPB semelhantes aos achados nacionais, porém com lacunas que limitam sua incorporação às práticas cotidianas. Nutricionistas obtiveram melhor desempenho, evidenciando desigualdades formativas e fragilidades interprofissionais, enquanto maior escolaridade e tempo de atuação associaram-se a melhores resultados. Os achados reforçam a necessidade de integrar os conteúdos do GAPB aos processos formativos e às ações de educação permanente em saúde, com enfoque interprofissional e matriciamento nutricional, contribuindo para o fortalecimento da APS, do cuidado integral e da efetivação do direito humano à alimentação adequada no contexto da Sindemia Global.