Teses e Dissertações
A INCORPORAÇÃO DE TECNOLOGIAS DIGITAIS NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE
MAURO SERGIO DE ARAUJO , João Felipe Marques
Data da defesa: 26/06/2026
A incorporação de tecnologias digitais tem se consolidado como importante vetor de transformação dos sistemas de saúde. Entretanto, sua efetividade depende não apenas da disponibilidade tecnológica, mas também da capacidade organizacional dos sistemas de saúde, da governança das políticas públicas e da integração entre os diferentes pontos da rede de atenção. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), apesar de iniciativas recentes voltadas à estruturação da Saúde Digital, persistem desafios relacionados à heterogeneidade da implementação entre municípios, à fragmentação do cuidado e à baixa interoperabilidade entre sistemas de informação em saúde. Diante desse cenário, esta dissertação teve como objetivo analisar a incorporação e o uso de tecnologias digitais na Atenção Primária à Saúde em municípios do estado do Paraná. A análise partiu dos resultados do questionário de 2024 do Índice Nacional de Maturidade em Saúde Digital (INMSD), examinando a presença e o uso de tecnologias digitais na APS em municípios paranaenses segundo porte populacional e vulnerabilidade social. Trata-se de um estudo ecológico, com abordagem quantitativa, que utilizou dados secundários de 399 municípios, extraídos de sistemas oficiais como o INMSD, o IVS e o IED. A análise estatística foi realizada com testes de normalidade, ANOVA, Kruskal-Wallis e correlação de Spearman. Os resultados evidenciaram desigualdades nos níveis de maturidade digital, com menores níveis entre municípios de menor porte e maior vulnerabilidade social. A literatura aponta que essas tecnologias podem fortalecer atributos da APS, ampliar o acesso e apoiar a tomada de decisão clínica, embora persistam barreiras relacionadas à governança, interoperabilidade e integração entre níveis de atenção. Conclui-se que a Saúde Digital representa oportunidade estratégica para fortalecer a APS no SUS, desde que acompanhada por investimentos em infraestrutura, qualificação profissional e integração da rede de atenção.
QUANDO A VIDA COMEÇA NO LIMITE: UMA CARTOGRAFIA DOS CUIDADOS PALIATIVOS NEONATAIS NO SUS
ANA PAULA MARSON, Regina Melchior
Data da defesa: 20/07/2026
Esta pesquisa acompanhou como se produzem os cuidados paliativos no contexto neonatal em um Hospital Universitário no município do Sul do Brasil, investigando os processos que emergem em uma Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) nas situações de fim de vida. O objetivo central foi analisar, a partir de uma perspectiva cartográfica, os modos de existência que se constituíram nas relações entre paisguias, bebês e profissionais de saúde, tomando o cuidado como produção situada, relacional e atravessada por forças micropolíticas. O referencial teórico-metodológico ancorou-se na cartografia inspirada em Deleuze e Guattari, em interlocução com autores da Saúde Coletiva, da Psicologia Hospitalar e dos Cuidados Paliativos, incluindo contribuições de Merhy, Rolnik, Puchalski, Saunders, Despret, entre outros. Ao operar a cartografia como percurso e como perspectiva analítica, o estudo deslocou a compreensão do cuidado para além de sua dimensão técnicoassistencial, afirmando-o como prática ética, afetiva, comunicacional e espiritual. A micropolítica do cuidado constituiu o eixo analítico central, evidenciando como decisões clínicas, práticas comunicacionais, gestos cotidianos e dimensões espirituais produziram efeitos éticos e subjetivos nos pais-guias, configurando territórios de sofrimento, resistência e criação. O acompanhamento cartográfico das cenas de cuidado revelou que os encontros entre pais, bebês e equipe de saúde sustentaram afetos potentes, capazes de orientar decisões compartilhadas e práticas mais sensíveis às singularidades de cada família. Quatro campos de forças atravessaram a análise do percurso: a conversação, compreendida como tecnologia leve produtora de vínculo e de sentidos; as ressonâncias afetivas, como força micropolítica que reorganizou práticas e relações; a ética, entendida como negociação viva no cotidiano do cuidado; e a espiritualidade, tomada como dimensão constitutiva do cuidar e do morrer, que emergiu nos rituais, nos gestos mínimos e nos modos singulares de cada família significar a vida breve do bebê. Esses campos de força não operaram de forma isolada, mas se interpenetraram e se coproduziram nos encontros. Apsicologia hospitalar foi evidenciada como campo de força transversal na produção do cuidado paliativo neonatal, atuando na mediação de sentidos, na sustentação da escuta qualificada, no manejo dos afetos da equipe e na construção compartilhada de decisões em contextos de alta complexidade. Os achados indicaram que, embora os protocolos tenham orientado as práticas, mostraram-se insuficientes frente à singularidade das situações, exigindo atualização contínua no plano das relações, da escuta e da negociação com as famílias. Compreendida como intervenção implicada, a pesquisa afirmou o cuidado paliativo neonatal como campo que integrou ciência, sensibilidade e responsabilidade compartilhada, no qual conversação, ressonâncias afetivas, espiritualidade e ação ética são dimensões inseparáveis do cuidado em saúde.
OS CONSÓRCIOS PÚBLICOS INTERMUNICIPAIS DE SAÚDE E SUA INTERLOCUÇÃO COM OS PRINCÍPIOS ORGANIZATIVOS DO SUS: UM RETRATO DO ESTADO DO PARANÁ
LETÍCIA CRISTINA BENTO, Fernanda de Freitas Mendonça, Silvia Karla Azevedo Vieira Andrade
Data da defesa: 07/05/2026
A cooperação interfederativa na política pública de saúde constitui elemento central para o enfrentamento das assimetrias institucionais e territoriais que caracterizam o federalismo brasileiro e tensionam a efetivação do Sistema Único de Saúde. Em um cenário marcado pela heterogeneidade socioeconômica e pela limitada capacidade técnica e financeira de grande parte dos municípios, especialmente os de pequeno porte, os Consórcios Públicos Intermunicipais de Saúde se colocam como arranjos institucionais potentes para viabilizar a descentralização, a regionalização, a hierarquização e a integralidade da atenção à saúde. Nesse contexto, este estudo buscou analisar a atuação desses consórcios no estado do Paraná, a partir de seus arranjos institucionais, de suas funções e papéis na organização do cuidado e na gestão regional do SUS, bem como das potencialidades e dos desafios relacionados à efetivação dos princípios organizativos do sistema. O estudo fundamentou-se no referencial teórico do federalismo brasileiro, adotando uma abordagem qualitativa de caráter descritivo-exploratório. A coleta de dados ocorreu no ano de 2024, em três momentos sequenciais e de forma articulada: oficina temática com gestores e atores estratégicos da política de saúde; entrevistas semiestruturadas com representantes governamentais e de entidades de controle externo; e aplicação do websurvey com dirigentes dos CPIS em funcionamento no Paraná. Os dados quantitativos foram analisados descritivamente e organizados em quatro eixos temáticos, enquanto os dados qualitativos foram examinados por meio de análise do discurso, possibilitando a triangulação das informações e a apreensão das dinâmicas institucionais e políticas que permeiam a ação consorciada. Os resultados indicam que os consórcios de saúde paranaenses apresentam elevada capilaridade territorial e desempenham papel estratégico na oferta de serviços de saúde. Evidencia-se que sua atuação fortalece a atenção especializada, o apoio técnico e administrativo aos municípios do território e racionaliza o uso de recursos públicos, ampliando o acesso à saúde, reduzindo desigualdades regionais e potencializando a regionalização do SUS. Observa-se que diversidade de arranjos institucionais, escopos de atuação e modelos de governança reflete as trajetórias históricas, condicionantes regionais e distintos graus de institucionalização do estado. Persistem desafios relacionados ao financiamento, à integração efetiva com as instâncias de pactuação interfederativa, à participação social, à coordenação e à sustentabilidade institucional de longo prazo. Conclui-se que os consórcios de saúde se configuram como instrumentos relevantes de cooperação federativa no SUS, com potencial para apoiar a efetivação de seus princípios organizativos, sendo necessário fortalecer seu reconhecimento institucional, sua articulação com os processos formais de governança regional e sua integração sistêmica à rede de cuidados.
PRECARIZAÇÃO DO TRABALHO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: ENTRE TRAJETÓRIAS INSTITUCIONAIS E DINÂMICAS MUNICIPAIS
CAROLINE PAGANI MARTINS, Fernanda de Freitas Mendonça
Data da defesa: 13/04/2026
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui o principal nível de organização do cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo fortemente dependente da força de trabalho para a garantia do acesso, da continuidade e da integralidade das ações. No entanto, desde sua conformação histórica, a APS tem sido marcada por arranjos institucionais que favoreceram a disseminação de formas precárias de trabalho nos municípios brasileiros. Esta tese teve como objetivo analisar como escolhas institucionais realizadas ao longo da trajetória do SUS contribuem para a consolidação da precarização do trabalho na APS dos municípios brasileiros. Trata-se de um estudo de abordagem quantiqualitativa, de natureza explicativa. No plano quantitativo, foram analisados dados secundários do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) referentes ao período de 2017 a 2023, com foco nas modalidades de contratação, carga horária e multiplicidade de vínculos de médicos e profissionais de enfermagem atuantes na APS de municípios de grande porte (MGP), segundo macrorregiões brasileiras. No plano qualitativo, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com nove gestores municipais de saúde da macrorregião Norte do Paraná, conduzidas entre junho e setembro de 2022. As entrevistas foram previamente agendadas e realizadas em ambientes privativos, com a presença de dois pesquisadores, buscando compreender as percepções desses atores acerca das formas de admissão e vínculo da força de trabalho no SUS, bem como as diferenças entre municípios de pequeno e grande porte. Os resultados evidenciam a persistência e a heterogeneidade regional da precarização laboral na APS, expressa na predominância de vínculos não estatutários, na elevada fragmentação das jornadas de trabalho e na multiplicidade de vínculos profissionais. As entrevistas revelaram que tais arranjos são frequentemente naturalizados pelos gestores como respostas pragmáticas a restrições fiscais, instabilidade normativa e fragilidades do financiamento federal. À luz do Institucionalismo Histórico, sustenta-se que a precarização do trabalho na APS é um processo ancorado em trajetórias institucionais e dependências de percurso construídas desde a implementação do SUS, no qual a descentralização sem correspondente indução federativa para a estruturação de carreiras, a flexibilização das formas de contratação, a fragilidade dos mecanismos de coordenação nacional e a difusão de racionalidades neoliberais e gerenciais na administração pública contribuíram para a consolidação de arranjos laborais precários como soluções recorrentes e socialmente legitimadas. Desse modo, esta tese contribui para o campo da Saúde Coletiva ao evidenciar como escolhas institucionais passadas produzem efeitos duradouros sobre a organização do trabalho em saúde. Seus achados reforçam que o enfrentamento da precarização do trabalho na APS exige não apenas iniciativas locais, mas o fortalecimento de políticas nacionais de gestão do trabalho, com maior coordenação federativa, financiamento adequado e estratégias estruturantes de provimento e carreira que favoreçam a estabilidade dos vínculos e a valorização da força de trabalho no SUS.
A TERRITORIALIZAÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: DESAFIOS ENTRE O MODELO NORMATIVO E SUA IMPLEMENTAÇÃO NOS MUNICÍPIOS PARANAENSES
ANGELA CRISTINA SCHNEIDER, João Felipe Marques
Data da defesa: 25/06/2026
A territorialização constitui um dos pilares estruturantes da Atenção Primária à Saúde (APS), por possibilitar a delimitação de populações adscritas e a compreensão ampliada das condições de vida, vulnerabilidades e necessidades em saúde nos territórios. Esta dissertação teve como objetivo compreender as práticas de territorialização desenvolvidas na APS nos municípios do estado do Paraná, com ênfase na organização do processo de trabalho das equipes da Estratégia Saúde da Família. Trata-se de estudo de método misto, com abordagem descritivo-analítica e qualitativa, desenvolvido em duas etapas sequenciais. Na primeira etapa, foram analisados dados secundários provenientes de questionários eletrônicos aplicados pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) aos 399 municípios paranaenses em 2023, especificamente no bloco “Territorialização e Vínculos”. As respostas foram categorizadas em conformidades e não conformidades, evidenciando fragilidades sobretudo nas práticas que demandam maior capacidade de análise, planejamento e utilização do território como elemento estruturante do processo de trabalho. A análise estatística transversal, realizada por meio do coeficiente de correlação de Spearman, identificou associações significativas entre os padrões regionais de não conformidades e o escore total estadual, demonstrando distribuição relativamente homogênea das fragilidades entre as macrorregiões do estado. Na segunda etapa, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com coordenadores municipais da APS, submetidas à análise de conteúdo, proposta por Laurence Bardin. Emergiram quatro categorias analíticas: territorialização impulsionada por exigências externas; distanciamento entre instrumentos formais e prática cotidiana; centralidade do Agente Comunitário de Saúde na leitura territorial; e dificuldades estruturais relacionadas à sobrecarga assistencial e à rotatividade profissional. Conclui-se que a territorialização, embora institucionalmente prevista como diretriz organizadora da APS, permanece tensionada por limitações organizacionais, fragilidades operacionais e induções avaliativas externas, sendo concretizada predominantemente a partir do trabalho vivo das equipes. Os achados revelam a persistente distância entre o modelo normativo da territorialização e sua implementação concreta nos municípios paranaenses.
ENTRE O SILÊNCIO E A NOTIFICAÇÃO: UM OLHAR PARA AS VIOLÊNCIAS CONTRA MENINAS E MULHERES EM UMA CIDADE DO NORTE DO PARANÁ
STEPHANE ATAMANCZUK DE LIMA, Marselle Nobre de Carvalho
Data da defesa: 18/05/2026
As violências contra meninas e mulheres configuram-se como graves problemas sociais e de saúde pública, atravessado por desigualdades estruturais de gênero, raça e classe, e enraizado em relações históricas de poder. Este estudo teve como objetivo analisar as características das notificações de violência contra meninas e mulheres no município de Londrina/PR, no período de 2011 a 2024, com base nos registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Trata-se de pesquisa descritiva, de abordagem quantitativa, baseada em dados secundários, que buscou caracterizar o perfil de meninas e mulheres em situação de violência, bem como dos(as) agressores(as), descrever os vínculos entre vítimas e agressores(as), classificar os tipos de violência e os locais de ocorrência, além de identificar padrões recorrentes do fenômeno. Os resultados evidenciam que a violência ocorre predominantemente no ambiente doméstico e é majoritariamente perpetrada por parceiro íntimo, com maior concentração entre mulheres adultas e crescimento significativo dos casos na adolescência nos últimos anos. Destaca-se, ainda, a expressiva incompletude da variável raça/cor, sobretudo pelo elevado preenchimento do campo “ignorado”, o que compromete a análise da realidade e dificulta a formulação de políticas públicas que considerem as desigualdades raciais. Conclui-se que, embora os dados oficiais sejam fundamentais para o planejamento, a implementação e a avaliação de políticas públicas, persistem fragilidades nos processos de notificação, relacionadas à subnotificação, ao não acesso e à culpabilização das vítimas, evidenciando a necessidade de fortalecer as redes de apoio, qualificar os serviços e investir na formação dos profissionais responsáveis pelos registros.
ACESSO A FLUORETOS, PREVALÊNCIA DE CÁRIE E FLUOROSE DENTÁRIA EM ADOLESCENTES INDÍGENAS KAINGANG DO NORTE DO PARANÁ
JOÃO FERREIRA DA SILVA NETO, Edmarlon Girotto
Data da defesa: 27/05/2026
Introdução: A saúde bucal dos povos originários é marcada por relevantes lacunas de conhecimento e desigualdades históricas, especialmente quando o assunto se refere ao acesso ao fluoreto e à ocorrência de fluorose dentária. A maior concentração desses estudos acontece em contextos urbanos e em populações não indígenas, o que contribui para a invisibilização desse grupo e para a manutenção de desigualdades em saúde, justificando a necessidade de investigações que considerem suas especificidades socioculturais e históricas, além das condições de acesso aos serviços e insumos de saúde bucal. Objetivo: Estimar a prevalência de fluorose dentária e cárie dentária, bem como analisar os teores de fluoreto na água de abastecimento e nos dentifrícios distribuídos em uma comunidade indígena do norte do Paraná. Métodos: Trata-se de uma pesquisa epidemiológica, transversal, descritiva com abordagem quantitativa, com adolescentes indígenas Kaingang da Aldeia Apucaraninha, no norte do Paraná, incluindo a avaliação da presença de fluoreto na água de abastecimento da comunidade e nos dentifrícios distribuídos pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI). Foram coletados dados primários por meio de exames bucais utilizando o Índice de Dean para a fluorose e o CPO-D para a experiência de cárie, além de contar com informações autorreferidas sobre as condições socioeconômicas, autocuidado e acesso aos serviços de saúde. Em paralelo, foram realizadas análises laboratoriais para a determinação do teor de fluoreto na água de abastecimento da comunidade e nos dentifrícios distribuídos pelo DSEI. Resultados: A análise laboratorial identificou concentração de fluoreto de 0,2 ppm na água de abastecimento da comunidade. Os dentifrícios avaliados apresentaram baixa fração de fluoreto solúvel, variando de 396 ppm (20,1%) a 664 ppm (47,1%), e elevada proporção de fluoreto insolúvel, entre 744 ppm (52,9%) e 1568 ppm (79,9%). Quanto à fluorose dentária, 81,3% dos participantes foram classificados como normais, 12,5% como questionáveis, 3,1% como muito leve e 3,1% como leve, sem registro de casos moderados ou severos. A experiência de cárie foi alta, com CPO-D médio de 6,84, composto majoritariamente por dentes cariados, com média de 5,91 (83,3%), seguido por dentes obturados, 0,88 (12,8%), e perdidos, 0,06 (0,9%). Não houve associação estatisticamente significativa entre fluorose dentária e CPO-D. Conclusão: A exposição ao fluoreto na população estudada acontece de forma limitada e pouco efetiva, não sendo suficiente para garantir uma consistente proteção contra a cárie. Os achados demonstram que apenas a presença de fontes fluoretadas não sustenta acesso adequado ao fluoreto, principalmente quando há ausência de fluoretação e tratamento da água e baixa qualidade dos produtos distribuídos. Sendo assim, o estudo reforça a necessidade de fortalecimento e execução das políticas públicas que garantam acesso qualificado ao fluoreto, bem como o monitoramento contínuo da água e da infraestrutura de saneamento, a vigilância dos produtos de higiene oral distribuídos e a ampliação do acesso aos serviços de saúde bucal de forma contínua, territorializada e culturalmente sensível.
AUTOPERCEPÇÃO DAS CONDIÇÕES DE SAÚDE BUCAL ENTRE INDÍGENAS KAINGANG DO PARANÁ
KELY BARBOZA RIBEIRO, Edmarlon Girotto
Data da defesa: 07/05/2026
Introdução: A autopercepção da saúde bucal é um indicador que reflete o entendimento dos indivíduos sobre sua própria saúde. Ela pode influenciar significativamente os comportamentos de saúde, a busca por cuidados odontológicos e a adesão a práticas preventivas. Entre os povos indígenas, compreender como eles percebem sua saúde bucal pode fornecer informações valiosas para a elaboração de políticas públicas e programas de saúde específicos que atendam às suas necessidades reais. Objetivo: Avaliar a autopercepção da saúde bucal de indígenas Kaingang do Paraná e analisar os fatores individuais, clínicos e sociodemográficos potencialmente relacionados. Métodos: Trata-se de um estudo transversal, envolvendo indígenas da aldeia Apucaraninha, localizada no município de Tamarana PR, das seguintes faixas etárias: 12 anos, 15 a 19 anos, 35 a 44 anos e 65 a 74 anos. Os dados foram coletados, utilizando-se smartphones, por meio de entrevista e exame bucal, a partir de um formulário eletrônico elaborado no aplicativo JOTFORM, com questões sobre aspectos socioeconômicos, práticas de autocuidado, necessidade de tratamento autopercebido, sintomas subjetivos de saúde bucal e autoperceção da saúde bucal. No exame clínico foi verificada a experiência de cárie dentária, por meio do índice CPO-D. O desfecho primário do presente estudo foi a autopercepção da saúde bucal. As variáveis independentes investigadas foram divididas em três categorias: individuais, contextuais e de saúde bucal. Foram conduzidas análises descritivas e de associação, utilizando-se o software IBM® SPSS. Resultados: O número de indígenas avaliados foi 205. A amostra, com predominância feminina (64,2%) e média de idade de 29 anos, apresentou distribuição educacional desigual - 35,2% com ensino fundamental incompleto e 26,9% com ensino médio completo - e grande vulnerabilidade socioeconômica – 56,6% com renda mensal familiar de meio salário-mínimo. A autopercepção da saúde bucal indicou que 47,8% dos participantes a consideraram “boa”, 34,6% como “regular” e 17,6% como “ruim”. Identificou-se um padrão geral positivo de autocuidado bucal, demonstrado pela alta prevalência de escovação dentária autorreferida (96,1%), uso do creme dental quase universal (96,6%), porém com adesão reduzida ao uso do fio dental, onde 48,5% afirmaram não utilizá-lo. A necessidade de tratamento odontológico autorreferida foi alta, atingindo, em média, 75,1% dos participantes, assim como a experiência de cárie dentária (96,6%). A presença de sintomas bucais também foi frequente, principalmente nas faixas etárias mais avançadas. Nos últimos seis meses, 41,8% das pessoas relataram dor dentária, 32,2% relataram problemas para morder ou mastigar, e 18,0% relataram dificuldades para falar. Ademais, 20,5% relataram dificuldades em realizar atividades cotidianas, e 30,2% sentiram vergonha ao sorrir. A autopercepção negativa da saúde bucal apresentou associação significativa com maiores valores do índice CPO-D (RPaj = 1,48; IC95%: 1,03–2,15). Além disso, mostrou-se associada à necessidade de tratamento odontológico (RPaj = 2,69; IC95%: 1,54–4,69), presença de dor nos últimos seis meses (RPaj = 1,48; IC95%: 1,13–1,95), dificuldade para morder ou mastigar (RPaj = 1,58; IC95%: 1,22–2,05), dificuldade para falar (RPaj = 1,46; IC95%: 1,11–1,91), vergonha de sorrir (RPaj = 1,81; IC95%: 1,41–2,31) e limitação para realizar atividades cotidianas em decorrência dos dentes (RPaj = 1,78; IC95%: 1,41 2,25). Conclusões: Estratégias clínicas e de promoção da saúde que integrem tratamento adequado, prevenção focada em riscos e educação em saúde que considere as dimensões culturais, subjetivas e psicossociais da saúde, são fundamentais para melhorar a saúde bucal da população indígena Kaingang.
CARACTERIZAÇÃO DA POPULAÇÃO EXPOSTA OCUPACIONALMENTE PELOS AGROTÓXICOS EM MUNICÍPIO DE PEQUENO PORTE DO PARANÁ
RAFAEL BOSIO CAPPI, Camilo Molino Guidoni
Data da defesa: 31/03/2026
Os agrotóxicos são amplamente utilizados na agropecuária contemporânea. Sua disseminação teve início a partir dos conflitos armados, a Guerra do Vietnã serviu como laboratório para a utilização em larga escala do Agente Laranja. Logo, serviu de base para o desenvolvimento de produtos voltados a agricultura. No Brasil, o período da Ditadura Militar foi responsável por expandir a Revolução Verde sendo sustentada a partir da implantação do Programa Nacional de Defensivos Agrícolas (PNDA), vinculando a modernização agrícola à repressão política, promovendo um modelo de desenvolvimento excludente que beneficiava grandes proprietários e silenciava movimentos camponeses. A expansão do agronegócio no Brasil é evidenciada ao longo das últimas décadas, consolidando um modelo agrícola de larga escala voltado à exportação e ampla dependência a agrotóxicos. Nesse sentido, se torna impactante o contexto ampliado, dos trabalhadores ocupacionalmente expostos no meio rural. A exposição humana aos agrotóxicos são responsáveis por diversos agravos à saúde desses trabalhadores, relacionando a alterações hormonais, malformações congênitas, diversos tipos de câncer, distúrbios endócrinos, doenças neurológicas, hepáticas, respiratórias, imunológicas, renais e distúrbios em saúde mental. O objetivo deste estudo é caracterizar a população exposta ocupacionalmente aos agrotóxicos no município de Novo Itacolomi-PR. Métodos e Casuística trata-se de um estudo transversal e analítico, a população estudada constituiu-se de indivíduos com idade de 18 anos ou mais. Os dados foram coletados baseados em sistemas de arquivos, prontuário digital e físico, preenchido no período de 27 de agosto de 2024 a 31 de julho de 2025, período que a população ocupacionalmente exposta aos agrotóxicos foi submetida ao atendimento pelo Fluxograma da Linha Guia do Estado do Paraná, utilizado para identificar o público-alvo pela Ficha de Rastreio, Consulta de Enfermagem, Consulta Médica, Avaliação de Saúde Mental e Estratificação de Risco. Foi realizado a análise descritiva das variáveis categorizadas em sociodemográficas, ocupacionais, manifestações clínicas, sendo o desfecho a pontuação dos níveis da estratificação de risco da população exposta. Foram analisados 159 prontuários, constatando-se a predominância do sexo masculino (97%), moradia na área rural (94%) faixa etária com média de 47,9 anos, etilismo (54%), raça branca (85%), casados (55%), agricultores familiares 95%, contato direto (100%), tempo de exposição >10 anos (90%), embalagem de agrotóxicos na unidade produtiva (97%), sintomas neuropsiquiátricos 4-11 (33%), sintomas somáticos 1 sintoma (25%), distribuição das morbidades 2-3 morbidades (30%) sendo doença do sistema osteomuscular mais relevante (59%), distribuição dos exames laboratoriais 2-3 alterados (24%), sendo o colesterol total mais relevante (36%), comprometimento neurológico ao exame físico os reflexos tiveram maior relevância (25%). A estratificação de risco conteve a prevalência no escore de alto risco (37%). O Teste do quiquadrado de Pearson não apresentou associação estatisticamente significativa entre o consumo de bebida alcoólica e a maioria das alterações laboratoriais avaliadas (p > 0,05). A única associação significativa foi identificada para Gama GT, cuja alteração foi mais frequente entre indivíduos que consomem bebida alcoólica (12,6%) em comparação aos não consomem bebida alcoólica (2,8%; p = 0,024). Os resultados encontrados nesse estudo caracterizam a população com condições de saúde prejudicadas com provável relação a exposição ocupacional por agrotóxicos. Espera-se que os resultados alcancem movimentos a nível municipal, além de impressionar outros setores públicos a nível estadual e nacional.
QUALIDADE DOS CARDÁPIOS DA ALIMENTAÇÃO ESCOLAR NA MODALIDADE DE EDUCAÇÃO INFANTIL EM MUNICÍPIOS DO PARANÁ
Daiane Beatriz Sales, Mathias Roberto Loch, Patrícia Fernanda Ferreira Pires
Data da defesa: 26/03/2026
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) consolidou-se como uma das principais políticas públicas de alimentação e nutrição no Brasil, atendendo milhões de estudantes e promovendo saúde, equidade e cidadania. Desde sua criação, evoluiu de uma estratégia de combate à fome para uma ação intersetorial que articula educação, saúde e agricultura, incorporando diretrizes que priorizam alimentos in natura e da agricultura familiar, além de restringir a presença de ultraprocessados. A avaliação da qualidade dos cardápios escolares torna-se fundamental para assegurar a adequação nutricional, fortalecer hábitos alimentares saudáveis e contribuir para o desenvolvimento integral das crianças. Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo avaliar os cardápios escolares da educação infantil em municípios do estado do Paraná e associar a fatores contextuais dos municípios. Trata-se de um estudo ecológico de abordagem quantitativa, baseado em análise documental de cardápios escolares disponíveis em canais oficiais dos municípios, coletados em 2024. Foram incluídos 223 municípios (55,9% dos 399 totais), e consideradas variáveis como porte populacional, Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), Indicador Equidade e Dimensionamento (IED), Macrorregiões geográficas do Estado e Nota da Alimentação Escolar (PROGOV). A avaliação utilizou o IQCOSAN-Creche para classificar os cardápios em adequados, precisa de melhoras e inadequados, com análises descritiva e estatística realizada por meio dos testes qui-quadrado, Kruskal-Wallis e razão de prevalência. Os resultados mostraram que 43% dos cardápios foram classificados como adequados, 41,7% precisavam de melhorias/adequações e 15,3% foram considerados inadequados, com mediana de 67 pontos. Municípios maiores e com IDHM mais elevado apresentaram melhores escores, enquanto municípios menores, com menor IDHM e localizados nas macrorregiões Norte e Noroeste tiveram os piores desempenhos, com maior prevalência de ultraprocessados e alimentos proibidos. Houve alta adequação na oferta de frutas (92,4%), verduras/legumes (96,9%) e ferro heme (98,7%), mas também elevada ausência de alimentos fonte de vitamina A (51,6%), ausência de alimentos da sociobiodiversidade (96,4%) e elevada frequência de ultraprocessados (33,2%) e alimentos proibidos (48,9%). Essas inadequações mostraram associação significativa com porte populacional, IDHM, macrorregião e a nota da alimentação escolar - PROGOV. Conclui-se que a qualidade dos cardápios está relacionada à capacidade institucional e aos indicadores socioeconômicos, reforçando desigualdades regionais. Para promover equidade e hábitos saudáveis, é fundamental avançar em estratégias intersetoriais, fortalecendo articulação com agricultura familiar, controle social e suporte técnico-financeiro aos municípios, em especial os mais vulneráveis, em alinhamento aos objetivos e diretrizes do PNAE como política pública de segurança alimentar. Reconhece-se, por fim, que a adequação dos cardápios é um processo contínuo, que exige monitoramento e construção coletiva, permitindo avanços graduais e sustentáveis na qualidade da alimentação escolar.