Teses e Dissertações
QUALIDADE DOS CARDÁPIOS DA ALIMENTAÇÃO ESCOLAR NA MODALIDADE DE EDUCAÇÃO INFANTIL EM MUNICÍPIOS DO PARANÁ
Daiane Beatriz Sales, Mathias Roberto Loch, Patrícia Fernanda Ferreira Pires
Data da defesa: 26/03/2026
O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) consolidou-se como uma das principais políticas públicas de alimentação e nutrição no Brasil, atendendo milhões de estudantes e promovendo saúde, equidade e cidadania. Desde sua criação, evoluiu de uma estratégia de combate à fome para uma ação intersetorial que articula educação, saúde e agricultura, incorporando diretrizes que priorizam alimentos in natura e da agricultura familiar, além de restringir a presença de ultraprocessados. A avaliação da qualidade dos cardápios escolares torna-se fundamental para assegurar a adequação nutricional, fortalecer hábitos alimentares saudáveis e contribuir para o desenvolvimento integral das crianças. Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo avaliar os cardápios escolares da educação infantil em municípios do estado do Paraná e associar a fatores contextuais dos municípios. Trata-se de um estudo ecológico de abordagem quantitativa, baseado em análise documental de cardápios escolares disponíveis em canais oficiais dos municípios, coletados em 2024. Foram incluídos 223 municípios (55,9% dos 399 totais), e consideradas variáveis como porte populacional, Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), Indicador Equidade e Dimensionamento (IED), Macrorregiões geográficas do Estado e Nota da Alimentação Escolar (PROGOV). A avaliação utilizou o IQCOSAN-Creche para classificar os cardápios em adequados, precisa de melhoras e inadequados, com análises descritiva e estatística realizada por meio dos testes qui-quadrado, Kruskal-Wallis e razão de prevalência. Os resultados mostraram que 43% dos cardápios foram classificados como adequados, 41,7% precisavam de melhorias/adequações e 15,3% foram considerados inadequados, com mediana de 67 pontos. Municípios maiores e com IDHM mais elevado apresentaram melhores escores, enquanto municípios menores, com menor IDHM e localizados nas macrorregiões Norte e Noroeste tiveram os piores desempenhos, com maior prevalência de ultraprocessados e alimentos proibidos. Houve alta adequação na oferta de frutas (92,4%), verduras/legumes (96,9%) e ferro heme (98,7%), mas também elevada ausência de alimentos fonte de vitamina A (51,6%), ausência de alimentos da sociobiodiversidade (96,4%) e elevada frequência de ultraprocessados (33,2%) e alimentos proibidos (48,9%). Essas inadequações mostraram associação significativa com porte populacional, IDHM, macrorregião e a nota da alimentação escolar - PROGOV. Conclui-se que a qualidade dos cardápios está relacionada à capacidade institucional e aos indicadores socioeconômicos, reforçando desigualdades regionais. Para promover equidade e hábitos saudáveis, é fundamental avançar em estratégias intersetoriais, fortalecendo articulação com agricultura familiar, controle social e suporte técnico-financeiro aos municípios, em especial os mais vulneráveis, em alinhamento aos objetivos e diretrizes do PNAE como política pública de segurança alimentar. Reconhece-se, por fim, que a adequação dos cardápios é um processo contínuo, que exige monitoramento e construção coletiva, permitindo avanços graduais e sustentáveis na qualidade da alimentação escolar.
EFETIVIDADE DOS RADARES FIXOS DE VELOCIDADE PARA REDUÇÃO DO NÚMERO E GRAVIDADE DE SINISTROS DE TRÂNSITO: UM ESTUDO TRANSVERSAL ANTES E DEPOIS
THAYS KUCHENBECKER, Edmarlon Girotto
Data da defesa: 17/04/2026
Introdução: Os sinistros de trânsito são grave problema de saúde pública global, com alto número de lesões e mortes. No Brasil, frota veicular crescente e urbanização desordenada agravam o cenário, sobrecarregando vias e os sistemas de saúde. O fator humano destaca-se como o principal determinante de fatalidades, especialmente o excesso de velocidade, que eleva risco de óbitos e incapacidades. Evidências de países alta mostram que radares de velocidade reduzem sinistros e gravidade de lesões. Porém, há lacuna científica sobre sua efetividade em nações de baixa/média renda, com diferenças em infraestrutura, fiscalização e comportamento de condutores. Assim, é essencial investigar o impacto no Brasil para embasar políticas públicas adaptadas às realidades locais. Objetivo: Avaliar o impacto da fiscalização eletrônica por radares de velocidade na redução da quantidade e gravidade das lesões em sinistros de trânsito no município de Londrina (PR). Métodos: Trata-se de um estudo observacional transversal do tipo antes e depois, baseado em dados secundários de sinistros atendidos pelo Corpo de Bombeiros Militar do Paraná e pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização de Londrina. O período analisado compreendeu um ano anterior e um ano posterior à instalação dos radares, entre 2020 e 2023. Utilizou-se o software QGIS para georreferenciamento e cálculo da distância entre o ponto do sinistro e o radar mais próximo. Resultados: Foram analisadas 1.456 ocorrências viárias, distribuídas entre os períodos pré e pós-intervenção. Após a instalação dos radares, observou-se redução global de 17,5% no número absoluto de sinistros e de 15,6% no total de vítimas. Demograficamente, vítimas masculinas caíram 18,6%, enquanto femininas diminuíram 10,3%. Faixas etárias jovens (20-29 anos: -28,1%; 30-39 anos: -35,3%; 10-19 anos: -26,6%) apresentaram maiores reduções, contrastando com aumentos em grupos mais velhos (40-49 anos: +34,0%). Ferimentos leves (-15,0%) e graves sem risco à vida (-16,1%), com risco à vida (-14,7%) predominaram, com óbitos caindo 25,0%. Motociclistas (condutores: -20,1%; passageiros: -19,2%) foram os mais afetados, enquanto pedestres aumentaram 5,3%. Por gravidade, fatais reduziram 56,3%, com maior eficácia em vias de 60 km/h (-91,7% de 12 para uma vítima) e colisões (-17,8%). Espacialmente, declínios foram acentuados próximas aos radares (0-50 m: -45,3%; 0-100 m: -34,8%), atenuando-se em distâncias maiores (até 500 m: -22,2%). Apesar de a regressão logística não indicar significância estatística para a diminuição global dos sinistros graves/fatais (OR = 0,851; IC 95%; p = 0,517), os padrões observados sugerem efeito positivo da intervenção sobre a severidade dos impactos. Conclusões: Observou-se redução na proporção de sinistros e vítimas, com predomínio de sinistros de menor gravidade após a instalação dos radares, além da diminuição de motociclistas e homens envolvidos. Os resultados apontam alterações nas características dos sinistros e no quantitativo de vítimas nas vias equipadas com fiscalização de velocidade, podendo subsidiar o planejamento de novas ações e estratégias para intensificar a fiscalização no trânsito, especialmente em vias de alta velocidade.
ANÁLISE DA LITERACIA E ADESÃO DO AUTOCUIDADO DE PACIENTES COM DIABETES MELLITUS TIPO 2 MAIORES DE 60 ANOS: UM ESTUDO TRANSVERSAL
MARIA HELENA DA COSTA, Marcos Aparecido Sarria Cabrera
Data da defesa: 11/02/2026
O Diabetes Mellitus tipo 2 (DM2) representa um desafio crescente de saúde pública, especialmente entre idosos, exigindo um manejo contínuo onde o autocuidado (AU) é fundamental. Contudo, a eficácia do AU depende da literacia em saúde (LS) do paciente, que frequentemente é uma barreira nesta população. Diante disso, o objetivo geral deste estudo foi analisar o autocuidado e a literacia em saúde de indivíduos idosos que convivem com o DM2 assistidos pela Atenção Primária em Saúde. Trata-se de um estudo transversal realizado com 60 idosos com DM2, residentes no munícipio de Sabáudia-PR. Foram aplicados um questionário sociodemográfico e clínico, o Spoken Knowledge in Low Literacy Patients with Diabetes (SKILLD) para avaliar a LS e o Questionário de Atividades de Autocuidado com o Diabetes (QAD) para o AU. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva, teste qui-quadrado e Regressão de Poisson com variância robusta. A amostra apresentou idade média de 69,07(6,89), baixa escolaridade, literacia insuficiente sobre a doença. A análise bivariada revelou associações estatisticamente significativas entre a LS inadequada e a baixa escolaridade (p=0,027), a não participação em grupos de educação em saúde (p=0,020) e baixa adesão ao AU (p=0,040). A adesão ao AU (até 3 dias) foi significantemente maior em quem depende de terceiros para comprar/retirar medicação (p=0,02). A análise de regressão confirmou que a LS adequada quase dobrou a prevalência de adesão ao AU (RP ajustada: 1,94) e que a não participação em grupos de educação em saúde reduziu a prevalência de LS adequada em 85% (RP ajustada: 0,15). Conclui-se que a literacia em saúde inadequada é uma barreira determinante para o autocuidado em idosos com DM2, impactando diretamente práticas que exigem mudança comportamental. A dependência de terceiros e a ausência em grupos educativos emergem como indicadores de risco, reforçando a necessidade de estratégias na APS focadas no empoderamento e autonomia do paciente.
CONHECIMENTO E PERCEPÇÃO DE AUTOEFICÁCIA DE PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO SOBRE O GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA
MARCELLA CAROLINA MOURA BOLOGNINI DE SOUZA, Paulo Henrique Guerra
Data da defesa: 27/02/2026
O Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB), elaborado pelo Ministério da Saúde, constitui um importante referencial para ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) no contexto escolar. Contudo, estudos indicam limitações no conhecimento desse documento e na autoeficácia para utilizá-lo entre profissionais da educação básica. Este estudo transversal objetivou avaliar o conhecimento e a percepção de autoeficácia desses profissionais em relação ao GAPB. Participaram 373 profissionais elegíveis das 10 escolas e 11 centros municipais de educação infantil de Ivaiporã (PR), abrangendo diferentes categorias. Os dados foram coletados por meio dos questionários validados GAB1 (conhecimento sobre o GAPB) e GAB2 (autoeficácia docente), este último aplicado exclusivamente aos professores. A análise foi realizada no software SPSS versão 22.0, utilizando estatística descritiva (frequências, percentuais) e testes de associação (qui-quadrado de Pearson e teste exato de Fisher quando aplicável), adotando nível de significância de 5% (p < 0,05). Os resultados revelaram diferenças significativas no conhecimento elevado (≥13 acertos no GAB1) entre categorias profissionais (p = 0,037), com maiores proporções entre professores (61,0%) e pós-graduados (65,0%). O conhecimento associou-se significativamente à idade (p = 0,013) e ao tempo de serviço (p = 0,037), mas não a gênero, cor/raça, escolaridade ou vínculo trabalhista. Quanto à autoeficácia (GAB2), apenas 36,3% dos docentes apresentaram níveis elevados, com maior proporção entre aqueles de 31 a 40 anos (39,7%) e menor entre profissionais com mais de 21 anos de tempo de serviço (2,7%). As diferenças no conhecimento e na autoeficácia em relação ao GAPB associaram-se à função exercida, idade e trajetória profissional, destacando a necessidade de ações de formação continuada para otimizar o uso do Guia no ambiente escolar.
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL DE EGRESSOS DO MESTRADO EM SAÚDE COLETIVA COM FORMAÇÃO INICIAL EM EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL
MAYRA SILVA ARAÚJO, Mathias Roberto Loch
Data da defesa: 25/02/2026
A inserção dos profissionais de Educação Física tem se intensificado na Saúde Coletiva. Contudo, persistem desafios na formação voltada a este campo. Nesta perspectiva a pós-graduação Stricto-Sensu, nível de mestrado surge como alternativa de qualificação, embora o conhecimento sobre a trajetória desses egressos ainda represente uma lacuna na literatura cientifica. O objetivo deste trabalho foi verificar a trajetória profissional de mestres em Saúde Coletiva e Saúde Pública com formação inicial em Educação Física no Brasil. Para tanto, foi realizado um estudo de delineamento transversal, descritivo e quantitativo com egressos de Mestrado Acadêmico em Saúde Coletiva e Saúde Pública no âmbito Nacional. Inicialmente foram identificados 35 programas. Em um projeto anterior, onde foram catalogados dados de 8217 dissertações e a(s) respectiva(s) formação(ões) inicial(is) dos autores (em nível de graduação), observou-se que 189 sujeitos tinham formação inicial em Educação Física, sendo estes os elegíveis para o presente estudo. Foi elaborado um questionário online constando questões sobre o perfil, formação acadêmica, inserção profissional e importância do mestrado sobre a carreira profissional e enviado para os elegíveis do estudo, seja a partir dos respectivos programas ou via contato direto com endereções eletrônicos encontrados em buscas realizadas na web. Para análise dos dados foi realizada estatística descritiva das variáveis, com distribuição de frequências absolutas e relativas e para analisar a evolução temporal das variáveis, com os dados agrupados em quinquênios, considerando o ano de término do mestrado, assim: Quinquênio 1 (Q1) =2010-2014; Quinquênio 2 (Q2) = 2015-2019; Quinquênio 3 (Q3) = 2020-2024. Responderam ao formulário, 113 sujeitos (taxa de resposta = 59,8%). A maioria era do sexo feminino (53,1%), mulher ou homem cis (97,3%) e autodeclarado de cor branca (54,9%). Cerca de metade (50,4%) tinham cursado o ensino médio totalmente em escola pública, com aumento proporcional ao longo dos períodos (de 39,4% no Q1 para 67,9% no Q3). Em relação a área à qual a dissertação está vinculada a Epidemiologia foi predominante (54,0%), mas apresentou um declínio percentual (de 72,7% no Q1 para 39,3% no Q3), enquanto observou-se crescimento das Ciências Humanas e Sociais (de 12,1% no Q1 para 35,7% no Q3). Quanto às experiências antes do mestrado, 51,3% referiram que a graduação não abordou conteúdos do
Sistema Único de Saúde, mesmo percentual dos que referiu que não ter tido experiências na formação inicial com outras profissões. 26,0% realizaram residência multiprofissional, cuja participação aumentou na comparação dos quinquênios (de 6,0% no Q1 para 32,1% no Q3). 57,5% tinham atuado anteriormente ou estavam atuando como docentes universitários no momento da coleta, tendo se observado diminuição ao longo dos quinquênios (54,5% no Q1 para 17,9% no Q3) e 26,4% atuaram na área de gestão. A percepção sobre o mestrado em relação ao trabalho atual, foi positiva, com 80,5% considerando “muito importante” ou “importante” e a maioria (61,9%) estava satisfeita com as condições de trabalho atuais. Mesmo diante das lacunas evidenciadas na formação inicial, a trajetória dos egressos de Educação Física em Saúde Coletiva, revela expressiva atuação nas áreas de docência e gestão e menor presença em cargos assistenciais, bem como uma percepção positiva do mestrado em relação a carreira profissional.
CONHECIMENTO SOBRE O GUIA ALIMENTAR PARA A POPULAÇÃO BRASILEIRA EM PROFISSIONAIS DE SAÚDE ATUANTES NA ATENÇÃO PRIMÁRIA DE LONDRINA – PARANÁ
RENATA LIZANDRA BUENO NASCIMENTO, Mathias Roberto Loch
Data da defesa: 13/02/2026
A promoção da alimentação adequada e saudável constitui uma estratégia essencial para a promoção da saúde e a melhoria da qualidade de vida da população. Nesse contexto, o Guia Alimentar para a População Brasileira (GAPB) se destaca como um instrumento fundamental de orientação e promoção de práticas alimentares saudáveis. A Atenção Primária à Saúde (APS), por sua vez, exerce um papel estratégico na implementação dessas diretrizes. O objetivo deste estudo foi verificar o conhecimento dos profissionais de saúde da APS sobre o GAPB. Foi realizado um estudo transversal, de amostragem por conglomerados com 373 profissionais de saúde atuantes na APS do município de Londrina - PR. Foi aplicado um questionário sociodemográfico, perguntas relacionadas ao trabalho e a escala GAB1 que possui 16 perguntas (de 0 a 16 pontos) com objetivo de investigar o conhecimento sobre o conteúdo do GAPB. Para a análise descritiva, usou-se a distribuição de frequências absoluta e relativa. Utilizou-se o teste de Shapiro Wilk para testar a normalidade das variáveis e na comparação de medianas, foi realizado teste de Mann Whitney para dois grupos e Kruskall Wallis para as variáveis com mais de dois grupos. Para analisar o nível de acertos das questões sobre o GAPB de acordo com a categoria profissional utilizou-se o teste Qui-Quadrado. A média e mediana de conhecimento dos profissionais de saúde atuantes na APS de Londrina - PR foi de 11 e 12, respectivamente. O conhecimento associou-se positivamente com ser Nutricionista - maior conhecimento em nove das 16 questões do instrumento e com profissionais com menos de 10 anos de atuação na APS. A média aumentou conforme o maior nível de escolaridade e maior frequência de uso das práticas de cuidado da APS (p valor <0,05). Ao comparar o nível de conhecimento sobre o GAPB por profissão, as maiores medianas foram do grupo de Nutricionistas (14), Profissionais de Educação Física (14) e Médicos(as) (13). Houve diferença significativa apenas no grupo de Nutricionistas e Médicos(as), quando comparada às médias dos ACS, Auxiliar/Técnico em Enfermagem e Auxiliar/Técnico em Saúde Bucal. Os profissionais da APS de Londrina apresentaram níveis de conhecimento sobre o GAPB semelhantes aos achados nacionais, porém com lacunas que limitam sua incorporação às práticas cotidianas. Nutricionistas obtiveram melhor desempenho, evidenciando desigualdades formativas e fragilidades interprofissionais, enquanto maior escolaridade e tempo de atuação associaram-se a melhores resultados. Os achados reforçam a necessidade de integrar os conteúdos do GAPB aos processos formativos e às ações de educação permanente em saúde, com enfoque interprofissional e matriciamento nutricional, contribuindo para o fortalecimento da APS, do cuidado integral e da efetivação do direito humano à alimentação adequada no contexto da Sindemia Global.
HIV/AIDS EM ANGOLA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA (2015-2024)
BENVINDO PAULO FILO NIENGUE, Mathias Roberto Loch, Paulo Henrique de Araujo Guerra
Data da defesa: 24/02/2026
O HIV continua sendo um grande problema de saúde pública global, especialmente no continente africano. Em Angola apresenta a prevalência entre adultos é de cerca de 1,6%, o que corresponde a cerca de 370 mil pessoas vivendo com HIV. Em 2024, ocorreram aproximadamente 21 mil novas infecções e 13 mil mortes relacionadas à aids. Neste contexto, a necessidade de sistematizar o conhecimento produzido sobre HIV/Aids em Angola torna-se evidente. A produção científica nacional ainda é escassa, fragmentada e, muitas vezes, pouco acessível, o que dificulta a identificação de tendências epidemiológicas, a avaliação da efetividade das intervenções e a formulação de políticas públicas baseadas em evidências. O objetivo deste estudo foi sintetizar o conhecimento relacionado ao HIV/Aids em Angola no período de 2015 a 2024. Foi realizado um estudo do tipo revisão integrativa da literatura. A revisão foi conduzida em etapas sequenciais: (1) identificação do tema e seleção da hipótese ou questão de pesquisa para a elaboração da revisão integrativa; (2) estabelecimento de critérios para inclusão e exclusão de estudos/ amostragem ou busca na literatura; (3) definição das informações a serem extraídas dos estudos selecionados/ categorização dos estudo; (4) avaliação dos estudos incluídos na revisão integrativa; (5) interpretação dos resultados; e (6) apresentação da revisão/síntese do conhecimento. A construção da questão de pesquisa baseou-se na estratégia PCC (População, Conceito e Contexto), sendo que a pergunta formulada foi: Quais são os principais achados publicados entre 2015 e 2024 sobre HIV/aids em Angola? Assim, foram incluídos artigos originais completos, publicados em um período de dez anos (2015 - 2024) que abordassem sobre HIV/Aids no contexto de angolano. O levantamento bibliográfico foi realizado em maio de 2025, pelo acesso virtual as bases de dados CINAHL, Scopus, Embase, Medline, PubMed e LILACS. Utilizou-se a seguinte combinação de descritores do Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), intercalados com os operadores booleanos “AND” e “OR”: “HIV OR Aids AND Angola. Os artigos foram selecionados através da leitura dos títulos e dos resumos por dois autores e, posteriormente, comparados para garantir a validação do procedimento. 20 artigos foram incluídos. Em relação à afiliação dos primeiros autores dos artigos, nove tinham afiliação com instituições angolanas e 11 com outros países (seis de Portugal, três da Itália e dois do Brasil). Sete estudos referiram ter algum tipo de financiamento. Quanto à abrangência dos estudos, em relação à amostra, observou-se que 14 tinham abrangência Local (em geral de um município ou província) e seis de abrangência nacional. Das pesquisas com abrangência local, 9 foram realizadas na província de Luanda, onde fica a capital do país, e somente outras duas províncias, das 21 existentes, também apresentaram estudos. A maioria dos estudos (n=15) incluiu ambos os sexos. Quanto ao tamanho da amostra, cinco estudos investigaram mais de 500 sujeitos, mesmo valor de amostras de 1 a 50 sujeitos. Em relação à faixa etária, onze estudos incluíram apenas adultos, quatro com adolescentes e adultos e três crianças. Sete estudos foram de delineamento transversal, quatro observacionais retrospectivos, três de intervenção, dois moleculares, além de terem sido encontrados um estudo com cada um destes delineamentos: revisão sistemática, qualitativo, validação e estudo de série temporal. 15 estudos tiveram abordagem quantitativa, dois qualitativas e dois abordagem mista. Os temas mais investigados foram: Diversidade Genética e resistência aos medicamentos (n=6), estratégias de intervenção (n=3) e transmissão vertical (n=3). Em síntese, pesquisas sobre HIV/Aids em Angola encontram-se em fase de consolidação, com avanços na produtividade, mas que ainda demanda diversificação metodológica, descentralização geográfica.
PERCEPÇÕES DOS SUPERVISORES DO PROGRAMA HIV/AIDS SOBRE OS MOTIVOS QUE LEVAM AS PESSOAS QUE VIVEM COM HIV À INTERRUPÇÃO DA TERAPIA ANTIRRETROVIRAL EM ANGOLA
EDNA ESPERANÇA MATAMBAMIGUEL FONSECA, Mathias Roberto Loch
Data da defesa: 26/02/2026
A epidemia de HIV/Aids permanece um desafio global e, em Angola, é generalizada, com prevalência superior a 1%. Os supervisores do programa HIV/Aids, responsáveis por coordenar e monitorar as atividades relacionadas ao HIV/Aids em nível provincial e municipal, desempenhem papel essencial na resposta à epidemia em Angola. Apesar da eficácia da Terapia Antirretroviral (TARV), a interrupção do tratamento ainda constitui um obstáculo para o controle da infecção. Objetivo: Avaliar as percepções dos Supervisores sobre os motivos que levam as pessoas que vivem com HIV (PVHA) a interrupção da TARV em Angola. Metodologia: Trata-se de um estudo transversal descritivo de abordagem quantitativa, de amostra intencional no qual foram considerados elegíveis 182 supervisores sendo 18 do nível provincial e 164 do nível municipal. A coleta de dados ocorreu entre os meses de julho e agosto de 2025, por meio de um questionário estruturado, contendo questões referentes ao perfil sociodemográfico e profissional dos participantes e percepções acerca dos fatores associados à interrupção da TARV. Os fatores foram agrupados em três categorias analíticas: intrínsecos, extrínsecos e relacionados ao sistema de saúde. Realizou-se análise descritiva das variáveis sociodemográficas e profissionais, e análise de associação entre as percepções de “influência/influência muito” e variáveis contextuais, como a função exercida e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das províncias de atuação. As questões abertas foram submetidas à análise categorial. Ao final, totalizaram-se 133 respostas, das quais 16 dos supervisores provinciais e 117 dos supervisores municipais. Entretanto foram excluídas 8 respostas por não atenderem aos critérios de inclusão, resultando em uma amostra final de 125 participantes. Resultados: O fator condições socioeconômicas desfavoráveis (88%), pertencente ao grupo dos fatores extrínsecos, foi o que apresentou, em geral, maior frequência de percepções dos profissionais como influente para a interrupção da TARV, sendo seguido pelos fatores estigma social e preconceito (73,6%) e influência de crenças culturais e religiosas (72,8%). Entre os fatores intrínsecos, o fator vergonha ou preconceito internalizado (87%) foi o que apresentou maior frequência de percepções dos participantes como influente para a interrupção da TARV, seguido pelo fator sentir-se bem, sem nenhum sinal (75,2%) e pelo fator dificuldade em aceitar o diagnóstico (65,6%). No grupo dos fatores relacionados ao sistema de saúde, os fatores com maior frequência de apontamentos como influentes para a interrupção da TARV foram, dificuldade de acesso às unidades por limitações estruturais ou logísticas (54,4%) e ausência de grupos de apoio organizados pelos serviços (49,6%).Em províncias com IDH mais elevado, observou-se equilíbrio entre fatores intrínsecos e extrínsecos, enquanto os fatores relacionados ao sistema de saúde apresentaram menor expressividade. As questões abertas revelaram fatores adicionais que segundo as percepções dos profissionais também são influentes para a interrupção da TARV, tratando-se da presença de doenças associadas, transumância/nomadismo, insegurança alimentar, insuficiência de recursos humanos e rotatividade de profissionais. Conclusão: A interrupção da TARV configura-se como fenômeno multifatorial, resultante da interação entre determinantes individuais, sociais, estruturais e organizacionais, variando conforme o contexto de vida das pessoas que vivem com HIV.
CARACTERÍSTICAS DOS ENCAMINHAMENTOS AO CAPS E FATORES ASSOCIADOS À INSERÇÃO E AO ABANDONO DO ACOMPANHAMENTO
LUISA GUEDES DI MAURO, Alberto Durán Gonzalez, Carlos Guilherme Meister Arenhart
Data da defesa: 27/02/2026
Introdução: A Reforma Psiquiátrica redefiniu o cuidado em saúde mental no Brasil ao substituir o modelo hospitalocêntrico pelo Paradigma Psicossocial e ao organizar a Rede de Atenção Psicossocial de forma territorial e integrada. Apesar dos avanços, persistem fragilidades nos encaminhamentos, na articulação entre serviços e na continuidade do cuidado. Assim, compreender como esses fluxos operam na prática é essencial para qualificar a rede e fortalecer o cuidado em liberdade. Objetivo: Descrever o perfil dos usuários encaminhados a um Centro de Atenção Psicossocial I de um município de pequeno porte, as características dos encaminhamentos e analisar os fatores associados à inserção e ao abandono do acompanhamento no CAPS. Método: Trata-se de um estudo descritivo-analítico, retrospectivo, de abordagem quantitativa, realizado no Centro de Atenção Psicossocial I (CAPS I) de um município de pequeno porte do norte do Paraná. Foram analisados 708 prontuários de usuários acolhidos entre 2021 e 2025. Para as análises relacionadas à trajetória assistencial, foram considerados os acolhimentos realizados até junho de 2023, garantindo período mínimo de dois anos de acompanhamento. Foram coletadas variáveis sociodemográficas, clínicas, características dos encaminhamentos e informações sobre o percurso assistencial dos usuários no serviço. Os desfechos analisados foram a inserção para acompanhamento no CAPS e o abandono do tratamento. Realizaram-se análises descritivas por medidas de frequência, testes de associação e modelos de regressão logística binária para identificação dos fatores associados aos desfechos. Resultados: Predominaram encaminhamentos de mulheres jovens adultas, brancas, solteiras e trabalhadoras. A APS foi responsável por mais da metade dos encaminhamentos, sobretudo realizados por clínicos gerais. A maior parte dos usuários possuía histórico de tratamento em saúde mental e a maioria dos encaminhamentos foram motivados por queixas ansiosas e depressivas. Observou-se fragilidade nos encaminhamentos, com registros incompletos e ausência da Estratificação de Risco em Saúde Mental (ERSM). O tempo entre encaminhamento e acolhimento foi majoritariamente curto. Risco suicida e uso de substâncias psicoativas aumentaram a chance de inserção no CAPS, enquanto sintomas depressivos e ansiosos isolados reduziram essa probabilidade. Dos 708 usuários, 59,7% foram inseridos (com elaboração de PTS) e 40,3% redirecionados a outros pontos da rede. Nos reacolhimentos, a demanda espontânea foi a principal porta de entrada. A maioria dos acompanhamentos durou até seis meses, e o abandono foi elevado: 72,3% dos PTS foram interrompidos, sendo 26,1% logo após o acolhimento. O abandono esteve associado principalmente ao uso de substâncias psicoativas. Conclusão: A trajetória dos usuários na RAPS é influenciada por fatores clínicos e sociais, mas também pela efetividade dos serviços e pelo grau de integração entre eles. Fragilidades nos encaminhamentos e na articulação da rede podem dificultar o acesso ao cuidado adequado, comprometendo o vínculo, a continuidade e a efetividade do tratamento. Nesse sentido, qualificar os encaminhamentos, fortalecer a resolutividade da APS e aprimorar estratégias cooperativas entre os pontos de atenção tornam-se essenciais para garantir percursos terapêuticos coerentes com as necessidades dos usuários
O PAPEL DO APOIO INSTITUCIONAL NA PRODUÇÃO DE AUTONOMIA PARA GESTORES DO SUS EM MUNICÍPIOS DE PEQUENO PORTE
JULIANA FERREIRA CANASSA CAMPITELLI, Fernanda de Freitas Mendonça
Data da defesa: 10/03/2026
Esta dissertação analisa o papel do apoio institucional no contexto da gestão do Sistema Único de Saúde em municípios de pequeno porte, à luz da Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire. Nesse contexto, o apoio institucional é compreendido como um dispositivo pedagógico e político que atua na mediação entre a burocracia e a prática cotidiana, convertendo orientações técnicas em possibilidades concretas de gestão e aprendizado. Parte-se do seguinte problema de pesquisa: como o apoio institucional contribui para a produção de autonomia de gestores do Sistema Único de Saúde em municípios de pequeno porte? A pesquisa foi orientada por uma matriz teórica inspirada nos princípios freirianos da Pedagogia da Autonomia, estruturada em elementos como a valorização dos saberes prévios, o diálogo constante, a construção coletiva, a produção de reflexão crítica sobre a realidade, o respeito ao contexto local e à apreensão da realidade, o saber escutar, o estímulo ao protagonismo dos atores e a disponibilidade para a mudança. Essa matriz orientou a análise das narrativas e experiências de gestores e apoiadores, permitindo compreender como o apoio institucional se configura como espaço de escuta, troca e construção compartilhada de saberes. Os resultados demonstram que o apoio institucional não apenas oferece suporte técnico, mas também desencadeia processos formativos que favorecem a conscientização e o fortalecimento da autonomia dos gestores. Ao provocar a reflexão crítica e o diálogo sobre o cotidiano da gestão, o apoiador institucional estimula a transformação das práticas e a ampliação do protagonismo local. Outro resultado encontrado foi o caráter gradual e processual da produção da autonomia, tensionado por limitações estruturais, como interferências políticas, questões relacionadas ao processo de trabalho e às interações com diferentes atores que compõem o campo da gestão. Conclui-se que o apoio institucional representa, simultaneamente, uma ferramenta técnica, um espaço pedagógico e uma prática política. Inspirado pela Pedagogia da Autonomia, ele concretiza a educação como prática de liberdade e reafirma a autonomia como um movimento contínuo, inacabado e coletivo, sustentado pelo diálogo, pela escuta e pela reflexão crítica sobre a realidade.