Teses e Dissertações
Palavra-chave: Sistema Único de Saúde
CONSTRUÇÃO COLETIVA DO COAPES EM UM MUNICÍPIO DE GRANDE PORTE: PERCEPÇÃO DOS SERVIDORES DE SAÚDE
JULY ANNE ROSSI MICHELIN, Alberto Durán González
Data da defesa: 14/03/2025
Introdução: Um cenário de práticas é onde se coloca a prática sob reflexão nos
diversos espaços do Sistema Único de Saúde (SUS). A integração entre ensino e
serviço possibilita grandes oportunidades de articulações que proporcionam o
fortalecimento do SUS e a melhoria da formação em saúde. Em 2015, instituíram-se
diretrizes para celebrar Contratos Organizativos de Ação Pública Ensino-Saúde
(COAPES) objetivando fortalecer a integração entre ensino, serviços e comunidade
no âmbito do SUS. Esse instrumento foi proposto para facilitar os processos de
negociação e tomadas de decisão que envolvam essas ações de integração.
Justifica-se a realização deste estudo como forma de explorar as ações de
articulações realizadas pela Secretaria Municipal de Saúde de um município de
grande porte para celebração do COAPES. Objetivo: Analisar o processo de
implantação e desenvolvimento do COAPES em um município de grande porte,
visando à organização e disponibilização de Unidades Básicas de Saúde como
cenários de práticas de ensino e aprendizagem, sob a percepção de profissionais
envolvidos. Método: Pesquisa descritiva com abordagem qualitativa utilizando como
referencial teórico alguns princípios do Pensamento Complexo propostos por Edgar
Morin. Realizaram-se 21 entrevistas semiestruturadas, no período de 19 de julho e
12 de setembro de 2023, com duas categorias de profissionais: aqueles que
participaram da implantação do COAPES e que, no momento da entrevista, não
mais atuavam no Serviço Municipal de Saúde, e aqueles que atuavam com o
COAPES no momento da entrevista. Utilizou-se como referencial metodológico para
organização dos resultados a análise de conteúdo proposta por Bardin. Resultados:
Antes da portaria que estabeleceu o COAPES, a organização dos cenários de
prática de ensino e aprendizagem seguia questões pessoais. Com a implantação do
COAPES foi possível realizar diagnóstico dos serviços de saúde, o
geoprocessamento e estratégias para sistematização dos cenários de prática.
Quanto a contextualização da realidade após sete anos da implantação do
COAPES, há um destaque para a pandemia de Covid-19 e suas principais
consequências. Referente as percepções dos servidores de saúde da secretaria
sobre a presença de discentes nos cenários de ensino e aprendizagem, há
abordagem sobre aspectos ligados às relações, ao significado do estudante nesse
espaço e as implicações na interção ensino-serviço. Considerações Finais: O
COAPES resulta de um processo constituído historicamente; sete anos após a
implantação é executado como um processo. Muitos avanços foram identificados
com essa organização de forma contratual, atendendo aos princípios do SUS na
distribuição em cenários de práticas. O processo de distribuição de discentes em
cenários de práticas não deve ser apenas uma etapa, mas um tema a ser
implantado, avaliado e construído de forma coletiva com todos os atores desse
contexto.
EDUCAÇÃO FÍSICA E SAÚDE COLETIVA: APROXIMAÇÕES ACADÊMICAS E PROFISSIONAIS
JOAMARA GOMES DOMINGUES DE OLIVEIRA , Mathias Roberto Loch
Data da defesa: 26/02/2025
Introdução: A institucionalização da Saúde Coletiva no Brasil foi e é mediada por muitos
acontecimentos desde a década de 1970 advindos da Saúde Pública, quando se inicia
formalmente sua estruturação por meio de avanços das ciências sociais na saúde e na
formação de recursos humanos, sendo nesta década criados os primeiros programas de
mestrado e doutorado em Saúde Pública e Medicina Social do país, que mais tarde foram
integrados ao campo hoje formado pela Saúde Coletiva. Na primeira década dos anos 2000,
em decorrência da implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) e seus princípios,
especialmente o da integralidade, inicia-se uma ampliação do campo de atuação da Educação
Física por meio de resoluções e políticas públicas decorrentes da visão ampliada de saúde,
conectando a Educação Física à Saúde Pública. Objetivo: analisar aproximações acadêmicas
e profissionais da Educação Física com a Saúde Coletiva. Objetivos específicos: 1) verificar a
intenção de atuar no SUS de estudantes de bacharelado em Educação Física de três
instituições públicas do Paraná; 2) verificar a inserção de profissionais de Educação Física nos
mestrados acadêmicos em Saúde Coletiva e Saúde Pública no Brasil de 2010 a 2019.
Métodos: esta tese foi estruturada no modelo de compilação de artigos, e cada objetivo
específico foi trabalhado em um artigo científico, cada um com métodos, resultados,
discussão e considerações finais próprios. O primeiro objetivo foi desenvolvido a partir de um
estudo transversal e descritivo em que 349 estudantes responderam questionário sobre
informações sociodemográficas, percepções sobre o SUS, conhecimento sobre Programas
Públicos para Práticas Corporais e Atividades Físicas (PCAF) e intenção de atuação
profissional no SUS, especificamente em Unidades Básicas de Saúde (UBS), hospitais que
atendem SUS e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Para contemplar o objetivo dois, foi
realizado um estudo descritivo em que se buscou identificar os programas com nome Saúde
Coletiva e Saúde Pública com dissertações defendidas no período de interesse (2010-2019),
sendo elegíveis 35 programas de mestrado acadêmico para esta investigação. Nos sites desses
programas realizou-se busca das dissertações e posteriormente, identificou-se a formação
inicial de cada egresso (a) no currículo Lattes, sendo identificados 149 egressos com
formação inicial em Educação Física. Resultados: artigo 1) Cerca de quatro em cada 10
estudantes referiram ter intenção de atuar em ao menos uma das possibilidades analisadas:
30,4% em UBS, 27,5% em hospitais e 24,6% nos CAPS. As prevalências foram maiores entre
as mulheres, entre os que referiram avaliação mais positiva sobre o SUS, entre os que
conheciam programas públicos que ofereciam PCAF e entre aqueles que já tinham ouvido
falar do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF-AB) e do Programa Academia da Saúde
antes de entrar na universidade. Artigo 2) Foram analisadas informações de 5.629 egressos e
destes, 149 (2,6%) tinham formação inicial em Educação Física. Dos 35 programas
investigados, 27 (77,1%) tinham ao menos um egresso com formação inicial em Educação
Física. Os programas com maior percentual de egressos com formação inicial em Educação
Física foram UFRGS (11,3%), FURG (10%), UNIFESP (6,4%), UFSC (6,1%), UECE
(5,8%), UNISINOS (5,1%) e UEFS (4,8%). Considerando a análise ano a ano (2010 a 2019),
observou-se que a porcentagem de egressos com formação inicial em Educação Física variou
de 1,9% a 4,3% e quando realizada a análise por quinquênio (2010-2014 e 2015-2019), apesar
de não ter sido observada diferença significativa, verificou-se crescimento de 36,4%, sendo
maior na região Sul (76,1%), mas sendo observada diminuição de 20% na região Sudeste.
Conclusão: no primeiro artigo, considerando que a Educação Física é uma profissão que possibilita ampla atuação, pode-se considerar relativamente alta a proporção de estudantes
que referiu interesse em atuar no SUS, especialmente na APS. No segundo artigo, no geral,
houve crescimento da participação de egressos da Educação Física em mestrados acadêmicos
em Saúde Coletiva e Saúde Pública no Brasil no período de 2010 a 2019. Entretanto essa
participação ainda é incipiente e mostra grande variação entre as regiões e entre as instituições
do país. Como conclusão geral da tese reforça-se a importância de potencializar experiências
sobre a Saúde Coletiva e a Saúde Pública em cursos de graduação em Educação Física, tanto
na licenciatura como no bacharelado, por docentes com expertise no assunto para
instrumentalizar adequadamente os futuros PPEF (Professores e Profissionais de Educação
Física) sobre as especificidades e possibilidades desse campo de atuação profissional, bem
como sobre as possibilidades de inserção em cursos de pós-graduação Stricto Sensu na área de
Saúde Coletiva e Saúde Pública.
REPERCUSSÕES DAS POLÍTICAS FEDERAIS NO TRABALHO DA GESTÃO DA APS EM MUNICÍPIOS DA MACRORREGIÃO NORTE DO PARANÁ
VIVIANE GRANADO BARREIRA DA SILVA, Brígida Gimenez Carvalho
Data da defesa: 19/04/2024
A Constituição Federal e as normativas do Ministério da Saúde instituíram mecanismos para
descentralizar as políticas públicas de saúde no Sistema Único de Saúde (SUS), atribuindo
responsabilidades para cada esfera de governo. Nos últimos anos ocorreram mudanças
importantes Atenção Primária à Saúde (APS), porta de entrada preferencial para a atenção à
saúde do SUS, com a publicação da Política Nacional da Atenção Básica (PNAB) 2017 e do
Programa Previne Brasil (PPB). Este estudo teve como objetivo analisar as alterações no
trabalho das equipes gestoras da saúde decorrentes da implantação das políticas públicas para
a APS, a partir de 2017, em nove municípios da macrorregião norte do Paraná. Trata-se de um
estudo de natureza qualitativa, e integra uma pesquisa maior denominada “Mudanças nas regras
de transferência de recursos federais do Sistema Único de Saúde: implicações e desafios para o
financiamento e a organização da Atenção Primária à Saúde no Brasil”. A seleção de nove
municípios se deu pela análise de indicadores de financiamento da saúde, visando contemplar
na seleção a diversidade de municípios da macrorregião norte do Paraná. As entrevistas,
ocorridas entre junho a setembro de 2022, foram realizadas presencialmente, nas secretarias de
saúde dos municípios, a partir de um roteiro semiestruturado, tendo como participantes os nove
gestores municipais de saúde e nove coordenadores da APS. A análise das entrevistas seguiu a
metodologia de análise de discurso. Os resultados foram organizados nas seguintes categorias:
características das equipes gestoras; apropriação e posicionamento dos gestores sobre as
políticas da APS; mudanças ocorridas no processo de trabalho e desafios encontrados frente à
essas mudanças. A maior parte dos municípios da pesquisa são de pequeno porte e as equipes
gestoras compostas pelos secretários de saúde e coordenadores da atenção básica, tendo o
predomínio de mulheres, na faixa etária de 36 a 51 anos. Verificou-se que sete gestores tinham
ensino superior completo, cinco deles com formação na área da saúde e seis possuíam até três
anos de atuação na área de gestão como secretário de saúde, apenas um gestor referiu não ter
experiência anterior na saúde. A coordenação da APS é composta por profissionais com ensino
superior em saúde, a maioria enfermeiras, sendo oito pós-graduadas, a maioria em saúde
coletiva, sete possuíam mais de quatro anos de atuação na coordenação da APS. Foram
identificados diferentes níveis de apropriação dos entrevistados a respeito das políticas da APS
a partir de 2017, evidenciando distintos entendimentos e a maioria demonstrou posicionamento
favorável às novas políticas. Foram relatadas mudanças nos processos de trabalho em saúde,
para o cadastramento da população no sistema e-SUS e para o monitoramento dos indicadores
do Previne Brasil. A implantação do prontuário eletrônico foi à mudança mais impactante, e
menos da metade dos municípios pesquisados optaram por adotar o sistema público (e-SUS),
principalmente devido à falta de suporte técnico do Ministério da Saúde e da Secretaria Estadual
de Saúde. Também se constituem em desafios: funcionários mais antigos com dificuldades em
lidar com sistemas eletrônicos e municípios com áreas rurais muito extensas e sem acesso à
internet. O referencial teórico utilizado possibilitou a análise das repercussões da implantação
de políticas públicas, como a PNAB e o PPB, no trabalho das equipes gestoras, considerando
como as responsabilidades estão sendo compartilhadas, como a cooperação entre os entes está
sendo promovida ou desafiada, bem como a falta de suporte técnico pode criar obstáculos
institucionais.
PREVALÊNCIA DO USO DE PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES POR USUÁRIOS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE DE SEIS MUNICÍPIOS DE PEQUENO PORTE DO ESTADO DO PARANÁ
GRASIELE SASTRE GRÉGIO PREVALÊNCIA, Mathias Roberto Loch, Milena Zanoni da Silva
Data da defesa: 28/02/2024
Introdução: As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) contemplam uma
variedade de recursos terapêuticos e racionalidades médicas não convencionais. Essas práticas
integram os serviços ofertados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e têm na atenção primária
à saúde o local preferencial para sua inserção. Objetivo: Investigar a prevalência e identificar
os fatores associados ao uso das PICS entre usuários da atenção primária à saúde de municípios
de pequeno porte do estado do Paraná. Métodos: Estudo transversal descritivo e quantitativo,
com dados coletados por entrevistadores previamente treinados. Foram convidados a responder
o questionário pessoas que aguardavam por atendimento em unidades de atenção primária à
saúde dos municípios selecionados. Consideraram-se três variáveis dependentes: uso geral das
PICS, uso de plantas medicinais/fitoterapia e uso de PICS exceto plantas medicinais/fitoterapia.
Fatores sociodemográficos, comportamentais e de saúde foram as variáveis independentes.
Realizou-se a análise descritiva dos dados, e verificaram-se as associações por meio do teste
Qui-quadrado de Pearson, com significância estatística 5% (p-valor < 0,05) e regressão de
Poisson com variância robusta, IC 95% e p-valor < 0,05. Resultados: A amostra foi composta
por 1.878 pessoas. A prevalência de uso geral das PICS foi de 51,2%; de plantas
medicinais/fitoterapia, 45,7%; e de PICS exceto plantas medicinais/fitoterapia, 14,7%. Destas,
as mais prevalentes foram meditação (6,2%) e auriculoterapia (2,9%). A análise ajustada para
o uso geral das PICS demonstrou maior prevalência entre pessoas do sexo feminino (RPa= 1,20,
IC95%: 1,07-1,34), com 40 anos ou mais (40 a 59 anos, RPa= 1,35, IC95%: 1,11-1,65; ≥ 60
anos, RPa= 1,50, IC95%: 1,20-1,88), brancas ou amarelas (RPa= 1,20, IC95%: 1,08-1,33), com
ensino superior completo (Rpa= 1,17, IC95%: 1,02-1,35), que praticavam atividade física no
tempo livre (Rpa= 1,27, IC95%: 1,17-1,38), que realizaram consulta com profissional de saúde
(não médico) (Rpa= 1,26, IC95%: 1,12-1,41), que receberam visita domiciliar (Rpa= 1,18,
IC95%: 1,07-1,29), com diagnóstico de neoplasia (Rpa= 1,21, IC95%: 1,02-1,44) e presença
de dor crônica musculoesquelética (Rpa= 1,25, IC95%: 1,13-1,38). Em relação ao uso de
plantas medicinais/fitoterapia, observaram-se as mesmas associações, exceto para escolaridade.
Quanto ao uso de PICS exceto plantas medicinais, houve maior prevalência nas pessoas com
25 anos ou mais (25 a 39 anos RPa= 1,78, IC95%: 1,13-2,81; 40 a 59 anos, RPa= 1,84, IC95%:
1,15-2,96; ≥ 60 anos, RPa= 1,83, IC95%: 1,03-3,25), maiores níveis de escolaridade (médio
completo, RPa= 2,03, IC95% 1,45-2,85; superior completo, RPa= 3,70, IC95%: 2,59-5,27), que
praticavam atividade física no tempo livre (RPa= 1,44, IC95%: 1,16-1,80) e que realizaram
consulta com profissional de saúde (não médico) (RPa= 1,40, IC95%: 1,02-1,91). Conclusão:
Os resultados demonstraram que cerca de metade dos usuários investigados referiram uso de
pelo menos uma PICS, sendo plantas medicinais/fitoterapia a prática com prevalência bastante
superior às demais. O uso das PICS foi maior entre pessoas do sexo feminino, com 40 anos ou
mais, com ensino superior completo, que praticavam atividade física no tempo livre, que
realizaram consulta com profissional da saúde, que receberam visita domiciliar, que referiram
diagnóstico de neoplasia e com dor crônica musculoesquelética.
O exercício do transver o cuidado à pessoa com deficiência
Desirée Ariane Modos Figueira, Maira Sayuri Sakay Bortoletto
Data da defesa: 13/10/2022
A luta por direitos das pessoas com deficiência vem ganhando visibilidade no mundo
desde a década de 70. Embora o Brasil tenha avançado na instituição de marcos
legais para a garantia dos direitos das pessoas com deficiência, percebe-se a
necessidade de produzir movimentos permanentes nos diversos âmbitos, jurídico,
político e das próprias pessoas com deficiência em torno da legitimação da ideia de
deficiência para além de um corpo disfuncional. Romper com a norma que impõe
padrões e controles é um desafio para a sociedade, que além de não aceitar o
diferente, age com preconceito e discriminações. Nesse sentido, este estudo teve
como objetivo cartografar a produção do cuidado à pessoa com deficiência que resiste
em um mundo normativo. Para tanto, realizou-se uma pesquisa qualitativa de
abordagem cartográfica. A escolha do município se deu por se tratar de um importante
polo econômico, referência para a região de saúde, além de conter uma significativa
população de pessoas com deficiência e não possuir um centro especializado de
referência. Como guia dessa cartografia, foi escolhido um usuário cidadão surdo, que
após sofrer um evento de violência ficou paraplégico e, em razão disso, passou a ter
comprometimentos de saúde que até hoje demandam cuidados específicos de
diferentes serviços de saúde. No decorrer da pesquisa foi possível acessar algumas
narrativas sobre o usuário em questão, e, a partir delas, identificou-se um recorrente
relato sobre sua recusa à cartela de serviços ofertados pelas equipes de saúde. Este
usuário sofreu com o preconceito e o julgamento moral. Foi julgado como uma vida
que vale menos e isso refletiu de forma negativa na produção do seu cuidado.
Recebeu diferentes rótulos, o de apenado, resistente e de usuário de difícil
relacionamento. Além dos rótulos, carrega em seu corpo marcas de diferentes
violências: físicas, emocionais e institucional. Essas marcas o compõem e refletem
em seu modo de agir e em suas escolhas relacionadas ao cuidado que deseja para
si. O encontro com Alexandre possibilitou um deslocamento no sentido de reconhecer
a sua potência de vida e sua resistência para existir nesse mundo normativo.
Reconhecemos que ele se apresenta como alguém capaz de ir contra os padrões
hegemônicos socialmente instituídos. Seu posicionamento de resistência se efetiva
em favor dos seus desejos, e no movimento que ele produz para ter seu corpo
respeitado e sua existência reconhecida. Para além de aprendizados sobre as
dificuldades e a violência sofrida pela pessoa com deficiência, as cartografias do
território do cuidado em saúde de Alexandre evidenciam a necessidade de fomentar
o debate sobre qual horizonte ético-político tem sido tomado como base para o agir
dos trabalhadores de saúde no cuidado às pessoas com deficiência. Impõe-se o
desafio de transver a deficiência no corpo para que sejam reconhecidas e legitimadas
outras formas de existência e esse é um aprendizado que precisa ser compartilhado
com gestores, trabalhadores e demais usuários do SUS.
Planejamento e organização da gestão da Atenção Primária à Saúde em municípios de pequeno porte: uma proposição de parâmetros essenciais
Karen Patricia Wilke Ferreira Rocha, Brígida Gimenez Carvalho
Data da defesa: 19/07/2022
A crescente demanda da sociedade por serviços públicos de qualidade e a gradativa
complexidade alcançada pela gestão pública, tornam iminentes o planejamento e
organização das secretarias municipais de saúde, em busca da qualificação de seus
processos de trabalho. A organização é essencial para dar visibilidade ao que é
prioritário, de modo a ser tratado de forma efetiva, com base nos recursos disponíveis,
tendo como alvo os resultados que se pretende alcançar. O objetivo deste trabalho é
avaliar a organização da estrutura e dos processos de planejamento e gestão da
Atenção Primária em secretarias municipais de saúde de municípios de pequeno
porte. Trata-se de uma pesquisa sequencial, realizada em duas fases. A primeira, de
abordagem quantitativa, para caracterização da população do estudo e análise
comparativa dos municípios da macrorregião Norte do Paraná, considerando o porte
populacional e os resultados financeiros em saúde. Os ensaios comparativos
evidenciaram a ausência de padrão em alguns resultados financeiros, frente ao porte
populacional. Ao contrário do que se acreditava, o aumento do porte populacional nem
sempre estava relacionado à melhora dos resultados financeiros, e muitos municípios
de pequeno porte apresentavam excelentes resultados. Tais achados deram origem
à definição dos casos para a segunda fase da pesquisa, de abordagem qualitativa,
realizada entre os meses de julho e novembro de 2021. Foram pesquisados oito
municípios de pequeno porte por meio de entrevistas às equipes gestoras, análises
documentais e aplicação de uma matriz de avaliação e julgamento (MAJ), validada
previamente por um grupo de experts. Para análise dos resultados do perfil
organizacional dos municípios selecionados, utilizou-se como referencial os
parâmetros da matriz, associados à tríade de qualidade de Avedis Donabedian. A
análise dos casos permitiu que fossem identificados parâmetros associados a bons
resultados, e evidenciou possíveis consequências da ausência de organização na
estrutura e nos processos da gestão da Atenção Primária em Saúde. Conclui-se,
durante o estudo, que a MAJ validada não era adequada à realidade dos pequenos
municípios, que em sua maioria não possuíam estrutura e dos processos de trabalho
sistematizados, com vistas à qualidade. Com base na análise dos resultados, foi
elaborado um rol de parâmetros, vistos como essenciais, para a área de planejamento
e gestão, a fim de orientar secretarias municipais de saúde de pequenos municípios
em seu processo de organização da Atenção Primária à Saúde. Quanto à avaliação
da organização municipal, o estudo concluiu que ações voltadas à qualificação da
estrutura e dos processos de planejamento e gestão, são determinantes para o
alcance de melhores resultados e maior aproveitamento dos recursos disponíveis.
Considerando o modelo de financiamento vigente para o custeio das ações na APS,
que condiciona o valor do repasse de recursos financeiros aos indicadores que
mensuram o desempenho das equipes, a organização dos processos de gestão se
torna ainda mais relevantes. Os parâmetros essenciais propostos aqui podem
contribuir para a sistematização de ações permanentes, e importante, para o alcance
de resultados satisfatórios e para a qualidade na atenção à saúde.
Participação dos consórcios de saúde na constituição e governança da linha de cuidados materno-infantil na região norte do Paraná
Laís Amélia Rover Miguel, Fernanda de Freitas Mendonça
Data da defesa: 30/03/2022
Os consórcios públicos de saúde (CPS) representam um instrumento de cooperação
federativa que tem sido difundido no Paraná principalmente para apoiar e suprir
necessidades de municípios na oferta de serviços. O governo do estado incorporou
esse instrumento para o gerenciamento de ambulatórios de atendimento
especializado na estruturação da rede de atenção à saúde em algumas linhas de
cuidado, entre elas a materno-infantil. O objetivo deste estudo foi analisar a atuação
e as relações estabelecidas pelos CPS na governança da Linha de Cuidado Materno
Infantil (LCMI) na Macrorregião Norte do Paraná. Foi realizada uma pesquisa
qualitativa por meio de entrevistas com 28 (vinte e oito) sujeitos, os quais
representavam os consórcios, os municípios, os Conselhos Regionais de
Secretários Municipais de Saúde (CRESEMS) e os representantes estaduais das
regiões de saúde da Macrorregião Norte do Paraná. A coleta de dados foi realizada
entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021. Os dados foram organizados e
analisados por meio da análise do discurso. Os resultados mostraram que os CPS
ampliaram a oferta de serviços na LCMI com o incentivo financeiro e coordenação
pelo governo estadual das ações realizadas. Foi relatado que as ações de
assistência à saúde disponibilizavam um rol ampliado de consultas e exames, por
meio de ações multiprofissionais, cujos profissionais eram qualificados. Em
decorrência da qualificação da LCMI, alguns representantes dos consórcios e do
estado nas regiões de saúde afirmaram que houve melhora da assistência e,
consequentemente, impacto positivo nos indicadores de mortalidade maternoinfantil.
Os CPS apoiam por meio da educação permanente as equipes de atenção
primária à saúde (APS) da região. Os municípios de pequeno porte necessitam de
acompanhamento para gestantes de alto risco e relataram não ter dificuldade no
acesso às ações do consórcio, das quais fazem parte tal acompanhamento.
Algumas limitações no acesso foram pontuadas em regiões mais populosas.
Também foram reportadas dificuldades havidas em função da distância entre os
municípios das regiões e o município-sede dos CPS. A regulação de vagas realizada
pela APS foi apontada como tendo falhas no processo de estratificação. Essa
dificuldade do acesso, porém, também pode ser associada a limitações estruturais e
financeiras das ações prestadas pelos CPS. A respeito da governança da LCMI, os
CPS podes ser apoiadores dos municípios por meio do grupo condutor e do
conselho curador, atuando como espaço para a cooperação dos envolvidos na rede.
As negociações nos espaços decisórios ainda refletem um desequilíbrio entre os
municípios e entre os municípios e o estado. Foi visto o papel importante do estado,
tanto pelo suporte financeiro quanto pela coordenação da rede de atenção à saúde
(RAS) no processo de regionalização. Porém, o planejamento das ações a serem
desenvolvidas nesta linha de cuidado nas regiões de saúde precisa ser mais
alinhado às necessidades regionais e menos centrado no ente estadual. Por fim, a
RAS ainda necessita de maior integração entre os pontos de atenção, apesar da
utilização de instrumentos digitais informais que facilitaram a comunicação.
Semelhante integração ainda foi relatada como sendo insuficiente para que o
cuidado seja continuado. Conclui-se que os CPS participam de forma importante
dentro da LCMI na região norte do Paraná tendo o estado como coordenador de
suas ações.
Repercussões do financiamento e da organização dos serviços de saúde bucal para o modelo de atenção odontológica na macrorregião Norte do Paraná.
Caroline Pagani Martins, Fernanda de Freitas Mendonça
Data da defesa: 24/02/2022
A conjuntura crítica perpetrada pela crise política e econômica ocorrida no Brasil em 2014 se somou a ascensão de um governo federal fortemente direcionado ao neoliberalismo, resultando em reformas econômicas centradas na austeridade fiscal, alterações emblemáticas na política de Atenção Básica (AB) e novas regras de financiamento federal do Sistema Único de Saúde (SUS). A compreensão dos efeitos dessas novas conformações para a assistência odontológica é imprescindível. Assim, o presente estudo teve como objetivo analisar as repercussões do financiamento e da organização dos serviços de saúde bucal para o modelo de atenção odontológica na macrorregião Norte do Paraná. Para tanto, realizou-se um estudo de natureza quanti-qualitativa desenvolvido em dois movimentos. O primeiro, quantitativo, foi constituído por um estudo descritivo e exploratório que, por meio de dados secundários, buscou avaliar indicadores de saúde bucal da macrorregião Norte do Paraná entre 2013 e 2019, identificando possíveis desafios para a consolidação dos pressupostos da Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB). No segundo movimento, qualitativo, foram entrevistados presencialmente entre julho e outubro de 2021, a partir de um roteiro semiestruturado, 29 gestores de saúde de 16 municípios da macrorregião Norte do Paraná. Utilizando-se o método de análise de discurso preconizado por Martins e Bicudo em 2005, foi investigada a percepção desses gestores sobre os principais desafios enfrentados na consolidação dos pressupostos da PNSB na atenção odontológica. Os resultados apontam um cenário atual preocupante para a macrorregião Norte do Paraná, com quedas abruptas no quantitativo de procedimentos individuais e ações coletivas, na contratualização de equipes de saúde bucal (eSB) e nas coberturas de eSB e de primeira consulta odontológica programática. Demonstram também que a organização da saúde bucal macrorregião analisada ainda prioriza condutas atreladas a modelos considerados ineficazes e ineficientes por serem produtivistas e curativistas, enquanto as Redes de Atenção à Saúde Bucal (RASB) se encontram fragilizadas devido aos amplos vazios assistenciais e pela dificuldade da Atenção Básica (AB) em atuar como coordenadora do cuidado. Ademais, outros problemas identificados foram a opção por modalidades de contratação menos estáveis e mais precarizadas, como a “pejotização”, o rompimento com as equipes multiprofissionais e a reordenação do trabalho com vistas ao cumprimento de metas, em uma perspectiva focalizada e produtivista, desconsiderando as reais necessidades dos territórios. A continuidade de políticas públicas de caráter universal que se pautam pela equidade é fundamental para os avanços em termos de acesso, utilização e resolutividade dos serviços. Dessa forma, a atual situação da PNSB suscita preocupação pois, caso não passe a ser financiada adequadamente e a receber priorização política, poderá se traduzir tão somente em uma política residual e focalizada.
Internações Hospitalares pelo SUS: Perfil Epidemiológico e Gastos em Maringá-PR, 1998 a 2002
Maria da Penha Marques Sapata, Darli Antônio Soares
Data da defesa: 18/12/2003
O acesso às internações hospitalares assume grande importância no contexto da organização do sistema municipal de saúde e é de grande relevância a participação desse nível de assistência no gasto da saúde, podendo afetar diretamente a governabilidade do sistema. Tendo Maringá dificuldades para custear a assistência hospitalar especialmente nos últimos anos, este estudo teve como objetivo analisar os gastos e o perfil das internações hospitalares pelo SUS. Foram estudadas todas as internações de Maringá no período de 1998 a 2002. Estas foram agrupadas em: residentes em Maringá que se internaram no próprio município e fora (evasão), bem como os não residentes que se internaram em Maringá (invasão). Os dados foram coletados do banco de dados SIH/SUS, disponíveis em Cdrom; dos processos de empenho do Fundo Municipal de Saúde e relatórios do DATASUS. Para análise de gastos utilizou-se os valores da Tabela SIH/SUS em reais e para estudo do déficit financeiro do FMS, os gastos foram corrigidos pelo IGP-M. Constatou-se que os leitos hospitalares são insuficientes para o atendimento da clientela SUS com déficit de pelo menos 161 leitos. Quanto às internações de residentes, a taxa de internação foi baixa, menos de 7%, tendo como principais causas: as doenças do aparelho respiratório (21,51%), doenças do aparelho circulatório (13,73%) e gravidez, parto e puerpério (11,17%). Nas faixas etárias > de 1 ano, 1 a 4 e 5 a 14 anos percebeu-se diminuição na taxa de internação. Diminuiu a evasão de residentes a partir de 2000, porém aumentou o custo médio das internações deste grupo em 2001 e 2002. No que se refere à ocorrência de internações dentro de Maringá, o comportamento das internações foi sempre crescente, tanto de residentes quanto de não residentes. As principais causas de internações de não residentes (invasão) foram os transtornos mentais e comportamentais (34,52%), doenças do aparelho circulatório (11,58%) e neoplasias (8,19%).O gasto com internações de residentes no próprio município subiu 36 % de 1998 a 2002, porém, o custo médio da AIH foi praticamente constante. O custo médio AIH de não residentes foi sempre superior ao custo médio das internações dos residentes (próximo do dobro). O Município acumulou déficit importante no Fundo Municipal de Saúde, principalmente nos anos de 2001 e 2002. Assim, este estudo mostrou que há necessidade de repactuação de recursos financeiros para garantir a assistência hospitalar aos usuários do SUS.
As Diretrizes Curriculares Nacionais e os Cursos Paranaenses de Odontologia: Processo de Construção e Perspectivas e Implementação
Mariângela Monteiro de Melo, Márcio José de Almeida
Data da defesa: 27/01/2004
Após o incontestável avanço da constitucionalização do Sistema Único de Saúde (SUS) é necessária sua consolidação que se dará por meio de políticas públicas que garantam à população o acesso universal e igualitário aos serviços de saúde. Dentre as estratégias para a consolidação do SUS está a reformulação do sistema formador de recursos humanos para a saúde que, por meio da publicação da Lei de Diretrizes e Bases, em 1996, oportunizou concretizá-la. O Edital 04/97 da Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação (SESu/MEC), as Instituições de Ensino Superior foram convocadas a apresentarem propostas para a elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais para todas as carreiras de ensino superior brasileiro. Houve grande mobilização da área da saúde e, na odontologia, as discussões se deram na Associação Brasileira de Ensino Odontológico, em conjunto com núcleos de pesquisas e a comissão de especialistas da SESu/MEc. Diante deste cenário, surge o questionamento de como ocorreu a construção das Diretrizes Curriculares Nacionais e como está sendo sua implementação nos cursos de odontologia do Estado do Paraná. Para se obter tais respostas utilizou-se o método qualitativo em que a coleta de dados se deu por meio de entrevistas semi-estruturadas que foram analisadas pela técnica de análise de conteúdo. Os atores que compuseram a pesquisa foram os coordenadores de cursos do Estado do Paraná e entidades que participaram da construção das Diretrizes para a odontologia como a Associação de Ensino Odontológico e a Rede Unida, compondo dois panoramas de análises: o Panorama Nacional e o Institucional. A partir do material coletado foram extraídas categorias que serviram na análise dos dados de onde foi possível identificar uma inquietação importante nos cursos do Paraná em relação as mudanças propostas pelas Diretrizes. Alguns processos mais maduros e ousados que outros, porém mais na dependência de “forças” individuais, comprometidas com o SUS, do que propriamente mudanças institucionalizadas. O estudo aponta a necessidade de que haja uma reformulação das Pós-graduações stricto sensu, de modo a subsidiar os docentes universitários às novas práticas de ensino que são requeridas pelas diretrizes. Destaca também que as dificuldades encontradas durante as discussões no interior dos cursos reforçam as relações de poder que existem nas Instituições de Ensino Superior no Brasil que por muitas vezes dificultam ou mesmo impedem a implementação das mudanças necessárias. Por outro lado, mostra que a Associação Brasileira de Ensino Odontológico exerce sobre os cursos um poder simbólico que, em função do tradicionalismo de algumas vertentes da entidade, pode inviabilizar os avanços significativos e necessários na formação de graduação em odontologia. O estudo encontrou ainda a inexistência de uma entidade de representação nacional dos estudantes de odontologia, o que também pode significar dificuldades de implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais.