Teses e Dissertações
Palavra-chave: Territorialização da Atenção Primária
A TERRITORIALIZAÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: DESAFIOS ENTRE O MODELO NORMATIVO E SUA IMPLEMENTAÇÃO NOS MUNICÍPIOS PARANAENSES
ANGELA CRISTINA SCHNEIDER, João Felipe Marques
Data da defesa: 25/06/2026
A territorialização constitui um dos pilares estruturantes da Atenção Primária à Saúde (APS), por possibilitar a delimitação de populações adscritas e a compreensão ampliada das condições de vida, vulnerabilidades e necessidades em saúde nos territórios. Esta dissertação teve como objetivo compreender as práticas de territorialização desenvolvidas na APS nos municípios do estado do Paraná, com ênfase na organização do processo de trabalho das equipes da Estratégia Saúde da Família. Trata-se de estudo de método misto, com abordagem descritivo-analítica e qualitativa, desenvolvido em duas etapas sequenciais. Na primeira etapa, foram analisados dados secundários provenientes de questionários eletrônicos aplicados pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) aos 399 municípios paranaenses em 2023, especificamente no bloco “Territorialização e Vínculos”. As respostas foram categorizadas em conformidades e não conformidades, evidenciando fragilidades sobretudo nas práticas que demandam maior capacidade de análise, planejamento e utilização do território como elemento estruturante do processo de trabalho. A análise estatística transversal, realizada por meio do coeficiente de correlação de Spearman, identificou associações significativas entre os padrões regionais de não conformidades e o escore total estadual, demonstrando distribuição relativamente homogênea das fragilidades entre as macrorregiões do estado. Na segunda etapa, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com coordenadores municipais da APS, submetidas à análise de conteúdo, proposta por Laurence Bardin. Emergiram quatro categorias analíticas: territorialização impulsionada por exigências externas; distanciamento entre instrumentos formais e prática cotidiana; centralidade do Agente Comunitário de Saúde na leitura territorial; e dificuldades estruturais relacionadas à sobrecarga assistencial e à rotatividade profissional. Conclui-se que a territorialização, embora institucionalmente prevista como diretriz organizadora da APS, permanece tensionada por limitações organizacionais, fragilidades operacionais e induções avaliativas externas, sendo concretizada predominantemente a partir do trabalho vivo das equipes. Os achados revelam a persistente distância entre o modelo normativo da territorialização e sua implementação concreta nos municípios paranaenses.