Teses e Dissertações
Palavra-chave: Saúde indígena
AUTOPERCEPÇÃO DAS CONDIÇÕES DE SAÚDE BUCAL ENTRE INDÍGENAS KAINGANG DO PARANÁ
KELY BARBOZA RIBEIRO, Edmarlon Girotto
Data da defesa: 07/05/2026
Introdução: A autopercepção da saúde bucal é um indicador que reflete o entendimento dos indivíduos sobre sua própria saúde. Ela pode influenciar significativamente os comportamentos de saúde, a busca por cuidados odontológicos e a adesão a práticas preventivas. Entre os povos indígenas, compreender como eles percebem sua saúde bucal pode fornecer informações valiosas para a elaboração de políticas públicas e programas de saúde específicos que atendam às suas necessidades reais. Objetivo: Avaliar a autopercepção da saúde bucal de indígenas Kaingang do Paraná e analisar os fatores individuais, clínicos e sociodemográficos potencialmente relacionados. Métodos: Trata-se de um estudo transversal, envolvendo indígenas da aldeia Apucaraninha, localizada no município de Tamarana PR, das seguintes faixas etárias: 12 anos, 15 a 19 anos, 35 a 44 anos e 65 a 74 anos. Os dados foram coletados, utilizando-se smartphones, por meio de entrevista e exame bucal, a partir de um formulário eletrônico elaborado no aplicativo JOTFORM, com questões sobre aspectos socioeconômicos, práticas de autocuidado, necessidade de tratamento autopercebido, sintomas subjetivos de saúde bucal e autoperceção da saúde bucal. No exame clínico foi verificada a experiência de cárie dentária, por meio do índice CPO-D. O desfecho primário do presente estudo foi a autopercepção da saúde bucal. As variáveis independentes investigadas foram divididas em três categorias: individuais, contextuais e de saúde bucal. Foram conduzidas análises descritivas e de associação, utilizando-se o software IBM® SPSS. Resultados: O número de indígenas avaliados foi 205. A amostra, com predominância feminina (64,2%) e média de idade de 29 anos, apresentou distribuição educacional desigual - 35,2% com ensino fundamental incompleto e 26,9% com ensino médio completo - e grande vulnerabilidade socioeconômica – 56,6% com renda mensal familiar de meio salário-mínimo. A autopercepção da saúde bucal indicou que 47,8% dos participantes a consideraram “boa”, 34,6% como “regular” e 17,6% como “ruim”. Identificou-se um padrão geral positivo de autocuidado bucal, demonstrado pela alta prevalência de escovação dentária autorreferida (96,1%), uso do creme dental quase universal (96,6%), porém com adesão reduzida ao uso do fio dental, onde 48,5% afirmaram não utilizá-lo. A necessidade de tratamento odontológico autorreferida foi alta, atingindo, em média, 75,1% dos participantes, assim como a experiência de cárie dentária (96,6%). A presença de sintomas bucais também foi frequente, principalmente nas faixas etárias mais avançadas. Nos últimos seis meses, 41,8% das pessoas relataram dor dentária, 32,2% relataram problemas para morder ou mastigar, e 18,0% relataram dificuldades para falar. Ademais, 20,5% relataram dificuldades em realizar atividades cotidianas, e 30,2% sentiram vergonha ao sorrir. A autopercepção negativa da saúde bucal apresentou associação significativa com maiores valores do índice CPO-D (RPaj = 1,48; IC95%: 1,03–2,15). Além disso, mostrou-se associada à necessidade de tratamento odontológico (RPaj = 2,69; IC95%: 1,54–4,69), presença de dor nos últimos seis meses (RPaj = 1,48; IC95%: 1,13–1,95), dificuldade para morder ou mastigar (RPaj = 1,58; IC95%: 1,22–2,05), dificuldade para falar (RPaj = 1,46; IC95%: 1,11–1,91), vergonha de sorrir (RPaj = 1,81; IC95%: 1,41–2,31) e limitação para realizar atividades cotidianas em decorrência dos dentes (RPaj = 1,78; IC95%: 1,41 2,25). Conclusões: Estratégias clínicas e de promoção da saúde que integrem tratamento adequado, prevenção focada em riscos e educação em saúde que considere as dimensões culturais, subjetivas e psicossociais da saúde, são fundamentais para melhorar a saúde bucal da população indígena Kaingang.