ACESSO A FLUORETOS, PREVALÊNCIA DE CÁRIE E FLUOROSE DENTÁRIA EM ADOLESCENTES INDÍGENAS KAINGANG DO NORTE DO PARANÁ
JOÃO FERREIRA DA SILVA NETO, Edmarlon Girotto
Data da defesa: 27/05/2026
Introdução: A saúde bucal dos povos originários é marcada por relevantes lacunas de conhecimento e desigualdades históricas, especialmente quando o assunto se refere ao acesso ao fluoreto e à ocorrência de fluorose dentária. A maior concentração desses estudos acontece em contextos urbanos e em populações não indígenas, o que contribui para a invisibilização desse grupo e para a manutenção de desigualdades em saúde, justificando a necessidade de investigações que considerem suas especificidades socioculturais e históricas, além das condições de acesso aos serviços e insumos de saúde bucal. Objetivo: Estimar a prevalência de fluorose dentária e cárie dentária, bem como analisar os teores de fluoreto na água de abastecimento e nos dentifrícios distribuídos em uma comunidade indígena do norte do Paraná. Métodos: Trata-se de uma pesquisa epidemiológica, transversal, descritiva com abordagem quantitativa, com adolescentes indígenas Kaingang da Aldeia Apucaraninha, no norte do Paraná, incluindo a avaliação da presença de fluoreto na água de abastecimento da comunidade e nos dentifrícios distribuídos pelo Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI). Foram coletados dados primários por meio de exames bucais utilizando o Índice de Dean para a fluorose e o CPO-D para a experiência de cárie, além de contar com informações autorreferidas sobre as condições socioeconômicas, autocuidado e acesso aos serviços de saúde. Em paralelo, foram realizadas análises laboratoriais para a determinação do teor de fluoreto na água de abastecimento da comunidade e nos dentifrícios distribuídos pelo DSEI. Resultados: A análise laboratorial identificou concentração de fluoreto de 0,2 ppm na água de abastecimento da comunidade. Os dentifrícios avaliados apresentaram baixa fração de fluoreto solúvel, variando de 396 ppm (20,1%) a 664 ppm (47,1%), e elevada proporção de fluoreto insolúvel, entre 744 ppm (52,9%) e 1568 ppm (79,9%). Quanto à fluorose dentária, 81,3% dos participantes foram classificados como normais, 12,5% como questionáveis, 3,1% como muito leve e 3,1% como leve, sem registro de casos moderados ou severos. A experiência de cárie foi alta, com CPO-D médio de 6,84, composto majoritariamente por dentes cariados, com média de 5,91 (83,3%), seguido por dentes obturados, 0,88 (12,8%), e perdidos, 0,06 (0,9%). Não houve associação estatisticamente significativa entre fluorose dentária e CPO-D. Conclusão: A exposição ao fluoreto na população estudada acontece de forma limitada e pouco efetiva, não sendo suficiente para garantir uma consistente proteção contra a cárie. Os achados demonstram que apenas a presença de fontes fluoretadas não sustenta acesso adequado ao fluoreto, principalmente quando há ausência de fluoretação e tratamento da água e baixa qualidade dos produtos distribuídos. Sendo assim, o estudo reforça a necessidade de fortalecimento e execução das políticas públicas que garantam acesso qualificado ao fluoreto, bem como o monitoramento contínuo da água e da infraestrutura de saneamento, a vigilância dos produtos de higiene oral distribuídos e a ampliação do acesso aos serviços de saúde bucal de forma contínua, territorializada e culturalmente sensível.