Teses e Dissertações
Palavra-chave: Regionalização da Saúde
OS CONSÓRCIOS PÚBLICOS INTERMUNICIPAIS DE SAÚDE E SUA INTERLOCUÇÃO COM OS PRINCÍPIOS ORGANIZATIVOS DO SUS: UM RETRATO DO ESTADO DO PARANÁ
LETÍCIA CRISTINA BENTO, Fernanda de Freitas Mendonça, Silvia Karla Azevedo Vieira Andrade
Data da defesa: 07/05/2026
A cooperação interfederativa na política pública de saúde constitui elemento central para o enfrentamento das assimetrias institucionais e territoriais que caracterizam o federalismo brasileiro e tensionam a efetivação do Sistema Único de Saúde. Em um cenário marcado pela heterogeneidade socioeconômica e pela limitada capacidade técnica e financeira de grande parte dos municípios, especialmente os de pequeno porte, os Consórcios Públicos Intermunicipais de Saúde se colocam como arranjos institucionais potentes para viabilizar a descentralização, a regionalização, a hierarquização e a integralidade da atenção à saúde. Nesse contexto, este estudo buscou analisar a atuação desses consórcios no estado do Paraná, a partir de seus arranjos institucionais, de suas funções e papéis na organização do cuidado e na gestão regional do SUS, bem como das potencialidades e dos desafios relacionados à efetivação dos princípios organizativos do sistema. O estudo fundamentou-se no referencial teórico do federalismo brasileiro, adotando uma abordagem qualitativa de caráter descritivo-exploratório. A coleta de dados ocorreu no ano de 2024, em três momentos sequenciais e de forma articulada: oficina temática com gestores e atores estratégicos da política de saúde; entrevistas semiestruturadas com representantes governamentais e de entidades de controle externo; e aplicação do websurvey com dirigentes dos CPIS em funcionamento no Paraná. Os dados quantitativos foram analisados descritivamente e organizados em quatro eixos temáticos, enquanto os dados qualitativos foram examinados por meio de análise do discurso, possibilitando a triangulação das informações e a apreensão das dinâmicas institucionais e políticas que permeiam a ação consorciada. Os resultados indicam que os consórcios de saúde paranaenses apresentam elevada capilaridade territorial e desempenham papel estratégico na oferta de serviços de saúde. Evidencia-se que sua atuação fortalece a atenção especializada, o apoio técnico e administrativo aos municípios do território e racionaliza o uso de recursos públicos, ampliando o acesso à saúde, reduzindo desigualdades regionais e potencializando a regionalização do SUS. Observa-se que diversidade de arranjos institucionais, escopos de atuação e modelos de governança reflete as trajetórias históricas, condicionantes regionais e distintos graus de institucionalização do estado. Persistem desafios relacionados ao financiamento, à integração efetiva com as instâncias de pactuação interfederativa, à participação social, à coordenação e à sustentabilidade institucional de longo prazo. Conclui-se que os consórcios de saúde se configuram como instrumentos relevantes de cooperação federativa no SUS, com potencial para apoiar a efetivação de seus princípios organizativos, sendo necessário fortalecer seu reconhecimento institucional, sua articulação com os processos formais de governança regional e sua integração sistêmica à rede de cuidados.
Participação dos consórcios de saúde na constituição e governança da linha de cuidados materno-infantil na região norte do Paraná
Laís Amélia Rover Miguel, Fernanda de Freitas Mendonça
Data da defesa: 30/03/2022
Os consórcios públicos de saúde (CPS) representam um instrumento de cooperação
federativa que tem sido difundido no Paraná principalmente para apoiar e suprir
necessidades de municípios na oferta de serviços. O governo do estado incorporou
esse instrumento para o gerenciamento de ambulatórios de atendimento
especializado na estruturação da rede de atenção à saúde em algumas linhas de
cuidado, entre elas a materno-infantil. O objetivo deste estudo foi analisar a atuação
e as relações estabelecidas pelos CPS na governança da Linha de Cuidado Materno
Infantil (LCMI) na Macrorregião Norte do Paraná. Foi realizada uma pesquisa
qualitativa por meio de entrevistas com 28 (vinte e oito) sujeitos, os quais
representavam os consórcios, os municípios, os Conselhos Regionais de
Secretários Municipais de Saúde (CRESEMS) e os representantes estaduais das
regiões de saúde da Macrorregião Norte do Paraná. A coleta de dados foi realizada
entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021. Os dados foram organizados e
analisados por meio da análise do discurso. Os resultados mostraram que os CPS
ampliaram a oferta de serviços na LCMI com o incentivo financeiro e coordenação
pelo governo estadual das ações realizadas. Foi relatado que as ações de
assistência à saúde disponibilizavam um rol ampliado de consultas e exames, por
meio de ações multiprofissionais, cujos profissionais eram qualificados. Em
decorrência da qualificação da LCMI, alguns representantes dos consórcios e do
estado nas regiões de saúde afirmaram que houve melhora da assistência e,
consequentemente, impacto positivo nos indicadores de mortalidade maternoinfantil.
Os CPS apoiam por meio da educação permanente as equipes de atenção
primária à saúde (APS) da região. Os municípios de pequeno porte necessitam de
acompanhamento para gestantes de alto risco e relataram não ter dificuldade no
acesso às ações do consórcio, das quais fazem parte tal acompanhamento.
Algumas limitações no acesso foram pontuadas em regiões mais populosas.
Também foram reportadas dificuldades havidas em função da distância entre os
municípios das regiões e o município-sede dos CPS. A regulação de vagas realizada
pela APS foi apontada como tendo falhas no processo de estratificação. Essa
dificuldade do acesso, porém, também pode ser associada a limitações estruturais e
financeiras das ações prestadas pelos CPS. A respeito da governança da LCMI, os
CPS podes ser apoiadores dos municípios por meio do grupo condutor e do
conselho curador, atuando como espaço para a cooperação dos envolvidos na rede.
As negociações nos espaços decisórios ainda refletem um desequilíbrio entre os
municípios e entre os municípios e o estado. Foi visto o papel importante do estado,
tanto pelo suporte financeiro quanto pela coordenação da rede de atenção à saúde
(RAS) no processo de regionalização. Porém, o planejamento das ações a serem
desenvolvidas nesta linha de cuidado nas regiões de saúde precisa ser mais
alinhado às necessidades regionais e menos centrado no ente estadual. Por fim, a
RAS ainda necessita de maior integração entre os pontos de atenção, apesar da
utilização de instrumentos digitais informais que facilitaram a comunicação.
Semelhante integração ainda foi relatada como sendo insuficiente para que o
cuidado seja continuado. Conclui-se que os CPS participam de forma importante
dentro da LCMI na região norte do Paraná tendo o estado como coordenador de
suas ações.