SAÚDE MENTAL DE PROFESSORES: ESTUDO SOBRE BURNOUT E TRANSTORNOS MENTAIS COMUNS NA REDE PÚBLICA DE ENSINO
THAISE CASTANHO DA SILVA, Camilo Molino Guidoni
Data da defesa: 14/04/2026
Introdução. A saúde mental tem se configurado como um dos principais desafios enfrentados pelos professores brasileiros, especialmente diante das transformações no mundo do trabalho. A elevada prevalência de transtornos mentais comuns (TMC) e da Síndrome de Burnout, associada à sobrecarga, desvalorização profissional e precarização das condições laborais, evidencia um cenário preocupante no contexto educacional. Objetivo Geral. Analisar a associação entre fatores sociolaborais e burnout e transtornos mentais comuns em professores de rede pública de ensino. Métodos. Trata-se de um trabalho desenvolvido no modelo escandinavo, que integra o projeto “Bem Cuidar: análise de saúde mental e hábitos de vida de servidores da Rede Estadual de Ensino do Paraná” e resultou em dois artigos científicos. O delineamento do estudo foi epidemiológico, transversal e quantitativo, realizado em 2022 com professores dos 32 Núcleos Regionais de Educação do Paraná. Os dados foram coletados por questionário online, abordando aspectos sociodemográficos, condições de trabalho e hábitos de vida, além dos instrumentos SRQ-20 e Copenhagen Burnout Inventory (CBI) para rastrear Transtornos Mentais Comuns e Síndrome de Burnout. As análises estatísticas foram conduzidas no software SPSS 19.0, com regressão logística e testes de associação. Resultados. Artigo 1). Entre 1.790 professores, 28,5% apresentaram Burnout elevado. Estiveram associados a esse desfecho: sexo feminino (OR 1,66), formação stricto sensu (OR 3,10), renda > 6 mil reais (OR 1,36). Outras variáveis incluem mais de 10 anos de trabalho (OR 3,84), carga horária > 40h (OR 2,44), histórico de afastamento por depressão/ansiedade (OR 5,94) e autopercepção de impedimento para o trabalho (OR 12,54). Uso de álcool (OR 1,30) e falta de atividade física semanal (OR 1,42) também foram significativamente associados ao Burnout. Artigo 2). A prevalência de TMC foi de 38,7%, sendo mais frequente entre mulheres, professores mais jovens, com maior tempo de serviço, vínculo efetivo e carga horária elevada. A prática de atividade física apresentou efeito protetor. Professores que relataram impacto da saúde mental no trabalho apresentaram maior chance de TMC (OR 13), assim como aqueles com histórico de afastamento por problemas psicológicos. Considerações finais. Os professores da rede estadual do Paraná apresentam alta prevalência de Síndrome de Burnout e Transtornos Mentais Comuns, fortemente relacionados a fatores laborais e hábitos de vida. O perfil mais vulnerável inclui mulheres, profissionais com longas jornadas, maior tempo de serviço e histórico de afastamento por questões psicológicas. Os achados evidenciam a necessidade de políticas institucionais voltadas à prevenção do adoecimento psíquico e à valorização das condições de trabalho docente.
Violência e burnout em professores da educação básica de Londrina
Francine Nesello Melanda, Selma Maffei de Andrade
Data da defesa: 12/03/2018
O objetivo deste estudo foi analisar se a exposição prévia à violência no ambiente escolar aumenta o risco de os professores sofrerem novamente violência após dois anos e identificar relações transversais e longitudinais entre violência psicológica e burnout. Trata-se de um estudo de coorte com dois anos de seguimento realizado com 430 professores do ensino fundamental e médio da rede pública de Londrina, Paraná. As informações foram obtidas em 2012- 2013 (T1) e 2014-2015 (T2) por entrevista face a face realizada por entrevistadores treinados e preenchimento, pelo próprio professor, de um questionário. As formas de violências investigadas foram violências psicológicas (relatos de insultos de alunos, humilhações ou constrangimentos por colegas ou superiores e ameaças recebidas) e violências físicas, nos 12 meses anteriores à pesquisa. Para mensurar burnout, utilizou-se o Maslach Burnout Inventory, sendo consideradas apenas as dimensões de exaustão emocional e despersonalização. Características sociodemográficas, relacionadas ao trabalho e à saúde foram incluídas como covariáveis. Para a análise da recorrência de violência foram utilizados o teste de McNemar e a regressão de Poisson com variância robusta, com apresentação do risco relativo (RR), intervalo de confiança de 95% (IC95%) e valor de p, considerando nível de significância de 5%. A relação entre violência psicológica e burnout foi verificada por modelos de equações estruturais. Violência psicológica, exaustão emocional e despersonalização foram consideradas variáveis latentes. Após dois anos, observou-se redução de 65,4% (T1) para 56,9% (T2) de violência reportada por professores (p=0,003), porém devido apenas à diminuição da frequência de relatos de humilhações ou constrangimentos por colegas ou superiores. Ter sofrido uma determinada forma de violência aumentou em até três vezes o risco de sofrê-la novamente em dois anos. Além disso, professores que relataram três ou quatro formas de violências em T1 apresentaram RR de 2,23 (IC95%1,70-2,93) de sofrer qualquer violência em T2, em comparação àqueles que não sofreram qualquer forma de violência em T1. Não foram encontradas evidências de que estar exposto à violência psicológica em T1 aumenta o risco de sofrer violência física em T2 ou que violência física em T1 aumenta o risco de violência psicológica em T2. Violência psicológica apresentou efeito direto sobre exaustão emocional e despersonalização, quando analisados transversalmente. Longitudinalmente, não foram observados efeitos diretos significativos. No entanto, observou-se um efeito indireto da violência psicológica em T1 sobre ambas as dimensões de burnout em T2. Este estudo mostrou que a violência contra professores, exceto a referente a humilhações ou constrangimentos por colegas ou superiores, é recorrente e que tem efeito sobre o burnout. Tendo em vista o impacto destrutivo da violência e do burnout no ambiente de trabalho, ressalta-se a importância da identificação da ocorrência desses eventos no ambiente escolar e no estabelecimento de políticas de prevenção e gerenciamento da violência e do esgotamento no trabalho.
Impacto do burnout na saúde de professores da rede pública do Paraná
Denise Albieri Jodas Salvagioni, Selma Maffei de Andrade
Data da defesa: 04/12/2017
Burnout é um fenômeno complexo e multidimensional resultante da interação entre aspectos individuais e ambiente de trabalho. É a resposta ao estresse crônico do trabalho definida por três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e reduzida realização profissional. Objetivo: Analisar se professores com maior nível de burnout estão submetidos a maior risco de acidentes de trânsito, depressão e afastamento da função docente por problemas de saúde. Método: Trata-se de estudo de coorte prospectiva com dois anos de seguimento. Foram investigados 509 professores do ensino básico estadual do Paraná. Utilizou-se o Maslach Burnout Inventory. Altos níveis de exaustão emocional e despersonalização (valores acima do percentil 75) e baixos níveis de realização profissional (valores abaixo do percentil 25) foram estabelecidos. Os acidentes de trânsito e os motivos de afastamento da função docente foram autorreferidos pelos entrevistados. Considerou-se depressão o relato de diagnóstico médico pelo professor. Usou-se Regressão de Poisson com variância robusta para cálculo do risco relativo. Resultados: A incidência de acidentes de trânsito entre professores foi de 11%. Após ajustes, a exaustão emocional e a reduzida realização profissional não influenciaram na incidência de acidente de trânsito. No entanto, despersonalização foi preditora desse desfecho – RR=1,73 (IC 95%: 1,05-2,86, p=0,03). A incidência de depressão foi de 38 casos (9%). Exaustão emocional e despersonalização influenciaram novos casos de depressão, após ajustes por sexo e idade, mas perderam significância estatística quando variáveis relacionadas ao ambiente de trabalho e às condições de saúde foram adicionadas ao modelo. A incidência de afastamento da função docente por problemas de saúde foi de 31 casos (6%). Desses, 13 estavam de licença médica (41,9%), 11 foram readaptados (35,5%), um foi aposentado compulsoriamente (3,2%) e seis abandonaram definitivamente a docência (19,4%). Após ajustes, a exaustão emocional não influenciou no afastamento da função docente. No entanto, despersonalização foi preditora desse desfecho – RR=2,62 (IC95%: 1,30-5,25, p<0,01). Baixos níveis de realização profissional apresentaram relação com o afastamento da função docente por problemas de saúde, porém sem significância estatística – RR=1,90 (IC95%: 0,93-3,87, p=0,08). Conclusões: Este estudo encontrou que (1) despersonalização é fator de risco para acidentes de trânsito, com risco 73% maior de professores em burnout sofrerem o desfecho, independente de sexo, idade e maior exposição ao trânsito; (2) nenhuma dimensão de burnout foi associada à incidência de depressão, após ajustes e, (3) despersonalização e reduzida realização profissional mostraram-se indicadoras de maior risco de afastamento da função docente por problemas de saúde.