PERCEPÇÕES DOS SUPERVISORES DO PROGRAMA HIV/AIDS SOBRE OS MOTIVOS QUE LEVAM AS PESSOAS QUE VIVEM COM HIV À INTERRUPÇÃO DA TERAPIA ANTIRRETROVIRAL EM ANGOLA
EDNA ESPERANÇA MATAMBAMIGUEL FONSECA, Mathias Roberto Loch
Data da defesa: 26/02/2026
A epidemia de HIV/Aids permanece um desafio global e, em Angola, é generalizada, com prevalência superior a 1%. Os supervisores do programa HIV/Aids, responsáveis por coordenar e monitorar as atividades relacionadas ao HIV/Aids em nível provincial e municipal, desempenhem papel essencial na resposta à epidemia em Angola. Apesar da eficácia da Terapia Antirretroviral (TARV), a interrupção do tratamento ainda constitui um obstáculo para o controle da infecção. Objetivo: Avaliar as percepções dos Supervisores sobre os motivos que levam as pessoas que vivem com HIV (PVHA) a interrupção da TARV em Angola. Metodologia: Trata-se de um estudo transversal descritivo de abordagem quantitativa, de amostra intencional no qual foram considerados elegíveis 182 supervisores sendo 18 do nível provincial e 164 do nível municipal. A coleta de dados ocorreu entre os meses de julho e agosto de 2025, por meio de um questionário estruturado, contendo questões referentes ao perfil sociodemográfico e profissional dos participantes e percepções acerca dos fatores associados à interrupção da TARV. Os fatores foram agrupados em três categorias analíticas: intrínsecos, extrínsecos e relacionados ao sistema de saúde. Realizou-se análise descritiva das variáveis sociodemográficas e profissionais, e análise de associação entre as percepções de “influência/influência muito” e variáveis contextuais, como a função exercida e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das províncias de atuação. As questões abertas foram submetidas à análise categorial. Ao final, totalizaram-se 133 respostas, das quais 16 dos supervisores provinciais e 117 dos supervisores municipais. Entretanto foram excluídas 8 respostas por não atenderem aos critérios de inclusão, resultando em uma amostra final de 125 participantes. Resultados: O fator condições socioeconômicas desfavoráveis (88%), pertencente ao grupo dos fatores extrínsecos, foi o que apresentou, em geral, maior frequência de percepções dos profissionais como influente para a interrupção da TARV, sendo seguido pelos fatores estigma social e preconceito (73,6%) e influência de crenças culturais e religiosas (72,8%). Entre os fatores intrínsecos, o fator vergonha ou preconceito internalizado (87%) foi o que apresentou maior frequência de percepções dos participantes como influente para a interrupção da TARV, seguido pelo fator sentir-se bem, sem nenhum sinal (75,2%) e pelo fator dificuldade em aceitar o diagnóstico (65,6%). No grupo dos fatores relacionados ao sistema de saúde, os fatores com maior frequência de apontamentos como influentes para a interrupção da TARV foram, dificuldade de acesso às unidades por limitações estruturais ou logísticas (54,4%) e ausência de grupos de apoio organizados pelos serviços (49,6%).Em províncias com IDH mais elevado, observou-se equilíbrio entre fatores intrínsecos e extrínsecos, enquanto os fatores relacionados ao sistema de saúde apresentaram menor expressividade. As questões abertas revelaram fatores adicionais que segundo as percepções dos profissionais também são influentes para a interrupção da TARV, tratando-se da presença de doenças associadas, transumância/nomadismo, insegurança alimentar, insuficiência de recursos humanos e rotatividade de profissionais. Conclusão: A interrupção da TARV configura-se como fenômeno multifatorial, resultante da interação entre determinantes individuais, sociais, estruturais e organizacionais, variando conforme o contexto de vida das pessoas que vivem com HIV.