Teses e Dissertações
Palavra-chave: abandono
CARACTERÍSTICAS DOS ENCAMINHAMENTOS AO CAPS E FATORES ASSOCIADOS À INSERÇÃO E AO ABANDONO DO ACOMPANHAMENTO
LUISA GUEDES DI MAURO, Alberto Durán Gonzalez, Carlos Guilherme Meister Arenhart
Data da defesa: 27/02/2026
Introdução: A Reforma Psiquiátrica redefiniu o cuidado em saúde mental no Brasil ao substituir o modelo hospitalocêntrico pelo Paradigma Psicossocial e ao organizar a Rede de Atenção Psicossocial de forma territorial e integrada. Apesar dos avanços, persistem fragilidades nos encaminhamentos, na articulação entre serviços e na continuidade do cuidado. Assim, compreender como esses fluxos operam na prática é essencial para qualificar a rede e fortalecer o cuidado em liberdade. Objetivo: Descrever o perfil dos usuários encaminhados a um Centro de Atenção Psicossocial I de um município de pequeno porte, as características dos encaminhamentos e analisar os fatores associados à inserção e ao abandono do acompanhamento no CAPS. Método: Trata-se de um estudo descritivo-analítico, retrospectivo, de abordagem quantitativa, realizado no Centro de Atenção Psicossocial I (CAPS I) de um município de pequeno porte do norte do Paraná. Foram analisados 708 prontuários de usuários acolhidos entre 2021 e 2025. Para as análises relacionadas à trajetória assistencial, foram considerados os acolhimentos realizados até junho de 2023, garantindo período mínimo de dois anos de acompanhamento. Foram coletadas variáveis sociodemográficas, clínicas, características dos encaminhamentos e informações sobre o percurso assistencial dos usuários no serviço. Os desfechos analisados foram a inserção para acompanhamento no CAPS e o abandono do tratamento. Realizaram-se análises descritivas por medidas de frequência, testes de associação e modelos de regressão logística binária para identificação dos fatores associados aos desfechos. Resultados: Predominaram encaminhamentos de mulheres jovens adultas, brancas, solteiras e trabalhadoras. A APS foi responsável por mais da metade dos encaminhamentos, sobretudo realizados por clínicos gerais. A maior parte dos usuários possuía histórico de tratamento em saúde mental e a maioria dos encaminhamentos foram motivados por queixas ansiosas e depressivas. Observou-se fragilidade nos encaminhamentos, com registros incompletos e ausência da Estratificação de Risco em Saúde Mental (ERSM). O tempo entre encaminhamento e acolhimento foi majoritariamente curto. Risco suicida e uso de substâncias psicoativas aumentaram a chance de inserção no CAPS, enquanto sintomas depressivos e ansiosos isolados reduziram essa probabilidade. Dos 708 usuários, 59,7% foram inseridos (com elaboração de PTS) e 40,3% redirecionados a outros pontos da rede. Nos reacolhimentos, a demanda espontânea foi a principal porta de entrada. A maioria dos acompanhamentos durou até seis meses, e o abandono foi elevado: 72,3% dos PTS foram interrompidos, sendo 26,1% logo após o acolhimento. O abandono esteve associado principalmente ao uso de substâncias psicoativas. Conclusão: A trajetória dos usuários na RAPS é influenciada por fatores clínicos e sociais, mas também pela efetividade dos serviços e pelo grau de integração entre eles. Fragilidades nos encaminhamentos e na articulação da rede podem dificultar o acesso ao cuidado adequado, comprometendo o vínculo, a continuidade e a efetividade do tratamento. Nesse sentido, qualificar os encaminhamentos, fortalecer a resolutividade da APS e aprimorar estratégias cooperativas entre os pontos de atenção tornam-se essenciais para garantir percursos terapêuticos coerentes com as necessidades dos usuários