{"id":3686,"date":"2025-03-14T12:59:28","date_gmt":"2025-03-14T15:59:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pos.uel.br\/ppgsoc\/?p=3686"},"modified":"2025-03-14T13:00:39","modified_gmt":"2025-03-14T16:00:39","slug":"projeto-lanca-mao-da-matematica-para-mapear-caracteristicas-dos-homicidios-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pos.uel.br\/ppgsoc\/sem-categoria\/2025\/03\/14\/projeto-lanca-mao-da-matematica-para-mapear-caracteristicas-dos-homicidios-no-brasil\/","title":{"rendered":"Projeto lan\u00e7a m\u00e3o da matem\u00e1tica para mapear caracter\u00edsticas dos homic\u00eddios no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Postagem original: Edson Vitoretti &#8211; Ag\u00eancia UEL. Publicado em 14 de mar\u00e7o de 2025 em <a href=\"https:\/\/operobal.uel.br\/clch\/2025\/03\/14\/projeto-lanca-mao-da-matematica-para-mapear-caracteristicas-dos-homicidios-no-brasil\/#\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/operobal.uel.br\/clch\/2025\/03\/14\/projeto-lanca-mao-da-matematica-para-mapear-caracteristicas-dos-homicidios-no-brasil\/#\">O Perobal.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1990 e 2000, a taxa de homic\u00eddios em Camb\u00e9 (PR) era de 6 por 100 mil habitantes. Na d\u00e9cada seguinte, os n\u00fameros saltaram para 26\/100 mil. Por\u00e9m, ap\u00f3s alcan\u00e7ar o pico hist\u00f3rico de 39 casos por 100 mil em 2012, houve uma queda acentuada, fazendo com que a taxa voltasse aos patamares da d\u00e9cada de 90. Entender os motivos pelos quais ocorreu essa gangorra, al\u00e9m de toda a complexidade que envolve as din\u00e2micas homicidas no Brasil e, em particular, no interior do pa\u00eds, s\u00e3o desafios do projeto de pesquisa \u201cSitua\u00e7\u00f5es Mortais: uma an\u00e1lise das caracter\u00edsticas e mudan\u00e7as das estruturas e processos das situa\u00e7\u00f5es dos homic\u00eddios no interior do Brasil\u201d, de autoria de Cleber da Silva Lopes, professor do&nbsp;<a href=\"https:\/\/departamentos.uel.br\/ciencias-sociais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Departamento de Ci\u00eancias Sociais<\/a>&nbsp;(CLCH) da Universidade Estadual de Londrina (UEL).<\/p>\n\n\n\n<p>Para dar conta desses desafios, o projeto \u2013 que est\u00e1 em fase inicial e foi contemplado no edital \u201cBolsas de Produtividade em Pesquisa e Desenvolvimento Tecnol\u00f3gico\u201d da&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.fappr.pr.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Funda\u00e7\u00e3o Arauc\u00e1ria<\/a>, em fevereiro deste ano \u2013 lan\u00e7a m\u00e3o de uma abordagem nada convencional. Isso porque, tradicionalmente, o foco dos estudos sobre homic\u00eddios tem se baseado apenas nos comportamentos (seja do agressor ou da v\u00edtima), o que gera limita\u00e7\u00f5es para explicar o fen\u00f4meno, pois apenas descrev\u00ea-lo sem considerar a caracteriza\u00e7\u00e3o da configura\u00e7\u00e3o em que ele se insere pode resultar numa explica\u00e7\u00e3o insuficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto pretende sanar essa defici\u00eancia mudando o foco da an\u00e1lise para as \u201cestruturas das situa\u00e7\u00f5es dos homic\u00eddios\u201c. O termo refere-se a todo o conjunto de vari\u00e1veis e as m\u00faltiplas inter-rela\u00e7\u00f5es entre elas, tendo como foco de an\u00e1lise tr\u00eas elementos fundamentais: v\u00edtima, agressor e crime. Conforme explica o professor Cl\u00e9ber, \u201cA estrutura da situa\u00e7\u00e3o do homic\u00eddio \u00e9 a configura\u00e7\u00e3o de um evento que resulta na viol\u00eancia letal intencional. A situa\u00e7\u00e3o se configura pelas caracter\u00edsticas das v\u00edtimas, dos ofensores e do crime, por isso os homic\u00eddios s\u00e3o muito diversos. Podemos ter v\u00edtimas com perfis variados, ofensores com perfis variados, e crimes variados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As estruturas das situa\u00e7\u00f5es dos homic\u00eddios, portanto, resultam das m\u00faltiplas vari\u00e1veis e suas combina\u00e7\u00f5es que est\u00e3o presentes nas v\u00edtimas e agressores (g\u00eanero, idade, ra\u00e7a,&nbsp;<em>status<\/em>&nbsp;socioecon\u00f4mico) e no crime (rela\u00e7\u00e3o entre v\u00edtima e ofensor, n\u00famero de ofensores, tipo de arma e local do homic\u00eddio). Estudar os homic\u00eddios em Camb\u00e9 ao longo de trinta anos oferece boa oportunidade para entender essas caracter\u00edsticas das situa\u00e7\u00f5es de homic\u00eddio e suas varia\u00e7\u00f5es. Uma das hip\u00f3teses dos pesquisadores \u00e9 de que ao longo do tempo os homic\u00eddios passaram a ser cometidos por homens mais jovens usando armas de fogo ao inv\u00e9s de facas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra hip\u00f3tese \u00e9 que nos anos 90, os crimes eram principalmente ligados a conflitos envolvendo a defesa da honra e da masculinidade, passando a se relacionar no ano 2000 com conflitos de gangues juvenis e, posteriormente, ao tr\u00e1fico de drogas. \u201cA nossa principal hip\u00f3tese \u00e9 que esses conflitos de gangues no in\u00edcio dos anos 2000 foram respons\u00e1veis pelo aumento dos homic\u00eddios, mas ainda n\u00e3o se sabe o que motivou a queda, que pode estar relacionada com a din\u00e2mica do tr\u00e1fico de drogas. Talvez com a chegada de certas organiza\u00e7\u00f5es criminosas, implanta-se uma ideologia do tipo \u2018n\u00e3o vamos nos matar, os inimigos s\u00e3o o Estado e a pol\u00edcia, pobre n\u00e3o mata pobre\u2019\u201d, suspeita o professor.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das vari\u00e1veis sociodemogr\u00e1ficas e das caracter\u00edsticas das situa\u00e7\u00f5es de crime, a an\u00e1lise tamb\u00e9m vai considerar o recorte entre os tipos de motiva\u00e7\u00e3o: instrumentais e expressivas. As primeiras dizem respeito \u00e0s ocorr\u00eancias nas quais o ofensor racionalmente busca obter vantagens com o crime, como dinheiro ou posi\u00e7\u00e3o social. J\u00e1 as expressivas, s\u00e3o a\u00e7\u00f5es intempestivas que ocorrem em decorr\u00eancia de raiva, inveja, ci\u00fames ou frustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Matem\u00e1tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para dar conta dessa diversidade de vari\u00e1veis \u2013 contexto, aleatoriedade e multifatoriedade \u2013 com vistas a encontrar padr\u00f5es que expliquem melhor as situa\u00e7\u00f5es de homic\u00eddios, o projeto pretende usar uma metodologia pouco usual, raramente usada na \u00e1rea de estudos sobre crime: a matem\u00e1tica, mais especificamente a&nbsp;<em>Qualitative Comparative Analysis<\/em>&nbsp;(QCA, ou An\u00e1lise Comparativa Qualitativa), que usa \u00e1lgebra booleana para modelar diferentes combina\u00e7\u00f5es de atributos que configuram as situa\u00e7\u00f5es homicidas e suas preval\u00eancias e mudan\u00e7as ao longo do tempo. O m\u00e9todo \u00e9 \u00fatil porque se volta para a explica\u00e7\u00e3o de fen\u00f4menos sociais que resultariam da a\u00e7\u00e3o conjunta de fatores e n\u00e3o do efeito isolado ou interativo de algumas poucas vari\u00e1veis, como \u00e9 feito na an\u00e1lise estat\u00edstica quantitativa usual. A QCA considera que diferentes combina\u00e7\u00f5es de atributos, caso a caso, podem produzir efeitos diversos e prev\u00ea procedimentos l\u00f3gicos para avaliar esses fen\u00f4menos de maneira sistem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, o m\u00e9todo adota procedimentos baseados na teoria dos conjuntos e em \u00e1lgebra booleana. Conforme explica o professor Cleber Lopes, a an\u00e1lise pode proporcionar uma leitura mais fina dos padr\u00f5es homicidas. \u201cQuando se tem poucos casos e muitas vari\u00e1veis, n\u00e3o se consegue fazer an\u00e1lise estat\u00edstica. A QCA tem sido muito utilizada para lidar com explica\u00e7\u00f5es causais, quando se tem muita complexidade, muita heterogeneidade e padr\u00f5es m\u00faltiplos\u201d. Ainda conforme o professor, os m\u00e9todos quantitativos tradicionais trabalham com a ideia de que quando A e B est\u00e3o presentes, aumenta-se a probabilidade de o resultado C ocorrer. J\u00e1 a An\u00e1lise Qualitativa Comparativa parte da ideia de que pode haver equifinalidade, ou seja, que padr\u00f5es causais variados, podem produzir resultados semelhantes ou tamb\u00e9m diversos, como A e B resultando em C ou D ou E.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se v\u00ea, o projeto tem relev\u00e2ncia e impactos te\u00f3rico, metodol\u00f3gico e pr\u00e1tico. Do ponto de vista te\u00f3rico, \u00e9 sabido que os estudos sobre homic\u00eddios t\u00eam ficado aqu\u00e9m do esperado por falta de consenso sobre o escopo dos comportamentos que as teorias deveriam tentar explicar e, conforme defende o projeto, a supera\u00e7\u00e3o dessas limita\u00e7\u00f5es passa pela mudan\u00e7a de foco dos comportamentos para as situa\u00e7\u00f5es de encontros violentos com desfecho letal. Do ponto de vista metodol\u00f3gico, o uso da QCA se mostra relevante pois a sociologia do crime no Brasil \u00e9 uma \u00e1rea dominada por m\u00e9todos qualitativos tradicionais e formada essencialmente por pesquisadores que t\u00eam pouco dom\u00ednio sobre m\u00e9todos e t\u00e9cnicas de pesquisa que utilizam a matem\u00e1tica como linguagem, impasse descrito por autores como o \u201ccalcanhar de Aquiles\u201d dessa \u00e1rea de pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista pr\u00e1tico, o estudo pretende contribuir para dar melhores subs\u00eddios para a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas de preven\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia letal, pois quanto mais conhecimento houver sobre os padr\u00f5es situacionais dos homic\u00eddios, maiores s\u00e3o as chances de tecer solu\u00e7\u00f5es sobre a quest\u00e3o. \u201cNormalmente, quando se cria uma pol\u00edtica p\u00fablica para lidar com um fen\u00f4meno que \u00e9 heterog\u00eaneo, se tem efeitos muito limitados, porque vai alcan\u00e7ar algumas dimens\u00f5es do fen\u00f4meno, mas n\u00e3o outras\u201d, comenta Cleber. Paralelamente, o projeto tamb\u00e9m pretende contribuir para a forma\u00e7\u00e3o de outros discentes por meio da oferta de uma disciplina te\u00f3rica na gradua\u00e7\u00e3o sobre as explica\u00e7\u00f5es da viol\u00eancia letal intencional, al\u00e9m de outra disciplina metodol\u00f3gica na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o sobre a QCA.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/operobal.uel.br\/wp-content\/webp-express\/webp-images\/doc-root\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/PROFESSOR-CLEBER-PROJETO-HOMICIDIOS-2.png.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-95207\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Professor Cleber da Silva Lopes: \u201cPodemos ter v\u00edtimas com perfis variados, ofensores com perfis variados, e crimes variados\u201d. (Foto: Ag\u00eancia UEL)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Cleber da Silva Lopes \u00e9 professor associado do Departamento de Ci\u00eancias Sociais da UEL e Doutor em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). \u00c9 membro da rede internacional\u00a0<em>Everyday Political Economies of Plural Policing<\/em>\u00a0e dos\u00a0<a href=\"https:\/\/legs.laboratorios.uel.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Institutos Nacionais de Ci\u00eancia e Tecnologia<\/a>\u00a0(INCTs) \u201cViol\u00eancia Poder e Seguran\u00e7a P\u00fablica\u201d (INViPS) e \u201cRepresenta\u00e7\u00e3o e Legitimidade Democr\u00e1tica\u201d (ReDem). O professor tamb\u00e9m coordena o \u201c<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/cnpq\/pt-br\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Laborat\u00f3rio de Estudos sobre Governan\u00e7a e Seguran\u00e7a<\/a>\u201d (LEGS), grupo de pesquisa vinculado ao\u00a0<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/cnpq\/pt-br\">Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico<\/a>\u00a0(CNPq) criado na UEL a partir da articula\u00e7\u00e3o de estudantes e acad\u00eamicos interessados em estudar o tema da seguran\u00e7a. O objetivo do LEGS \u00e9 fomentar e disseminar estudos focados principalmente nos atores n\u00e3o estatais engajados na governan\u00e7a da seguran\u00e7a no interior dos Estados e no cen\u00e1rio internacional. Entre os diversos t\u00f3picos de interesse do grupo est\u00e3o: privatiza\u00e7\u00e3o e pluraliza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a; parcerias p\u00fablico-privado na \u00e1rea de seguran\u00e7a; pol\u00edtica criminal e de seguran\u00e7a p\u00fablica; e governan\u00e7a da seguran\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Postagem original: Edson Vitoretti &#8211; Ag\u00eancia UEL. Publicado em 14 de mar\u00e7o de 2025 em O Perobal. Entre 1990 e 2000, a taxa de homic\u00eddios em Camb\u00e9 (PR) era de 6 por 100 mil habitantes. Na d\u00e9cada seguinte, os n\u00fameros saltaram para 26\/100 mil. 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